Há quem insista que a política é um desporto de cavalheiros. Depois liga a televisão, abre o jornal ou espreita as redes sociais e percebe que estamos mais perto de uma luta livre com microfones do que de um torneio de xadrez. O debate público tornou-se ruidoso, agressivo e permanentemente desconfiado. Não admira, por isso, que o Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, tenha vindo recentemente lamentar a “lógica de suspeição generalizada sobre os políticos”, denunciando a transformação da política num tribunal moral permanente, onde cada adversário é réu e cada eleitor juiz.
A crítica é pertinente. Mas talvez chegue tarde. A devassa moral, a insinuação como arma política e a confusão entre escrutínio legítimo e linchamento simbólico tornaram-se, há muito, parte do mobiliário democrático. O problema não é apenas o desgaste pessoal dos visados. É o ambiente que este padrão cria — e normaliza.
É aqui que surge uma pergunta incómoda, mas inevitável: poderá este clima político tóxico estar a contribuir para o aumento da criminalidade violenta?

Jurista
A política não é apenas o espelho da sociedade. É também o seu termómetro. E quando o discurso aquece demasiado, não é só o Parlamento que ferve — é o país inteiro
Convém ser claro desde o início. Não se trata de imaginar delinquentes a citar debates parlamentares antes de cometerem um crime. A relação não é direta nem mecânica. Mas o mundo social raramente funciona por linhas retas. A investigação em sociologia e psicologia social tem mostrado que contextos marcados por discursos agressivos, polarização extrema e desconfiança permanente tendem a produzir ambientes emocionais mais inflamados. A tensão deixa de ser exceção, a hostilidade banaliza-se e a agressividade torna-se mais facilmente justificável — não como ato racional, mas como reação normalizada.
Enquanto este debate passa quase despercebido, os dados provisórios do Relatório Anual de Segurança Interna indicam que a criminalidade violenta e grave voltaram a aumentar em 2024. Seria intelectualmente desonesto atribuir essa subida a um único fator. Fenómenos desta natureza têm múltiplas causas: económicas, sociais, urbanas, demográficas, policiais. Ainda assim, quando diferentes indicadores apontam para um mesmo clima de crispação social, a hipótese de mera coincidência começa a exigir explicações mais densas.
Uma democracia crispada tende a produzir uma sociedade crispada. Quando os representantes políticos se tratam como inimigos morais, os cidadãos aprendem a desconfiar de tudo e de todos. Quando o debate público se transforma num concurso de suspeições, a confiança nas instituições evapora-se. E quando essa confiança desaparece, o espaço público torna-se mais permissivo à agressão — não porque a política “crie” criminosos, mas porque baixa o limiar social da violência aceitável.
Importa sublinhar que esta responsabilidade não é exclusiva dos políticos. Os media, as redes sociais e o próprio consumo acrítico de indignação permanente por parte dos cidadãos fazem parte da equação. Mas a política tem um peso simbólico particular: define o tom, estabelece limites e sinaliza o que é tolerável.
É o velho princípio: se os adultos da sala passam o dia aos gritos, não esperem que as crianças falem baixinho.
Aguiar-Branco tem razão ao denunciar a devassa moral e o julgamento ético em praça pública. Falta talvez acrescentar o resto da equação: um país que se habitua à violência simbólica acaba por tolerar melhor a violência real. E essa tolerância, ao contrário das campanhas eleitorais, não termina no dia das eleições.
A política não é apenas o espelho da sociedade. É também o seu termómetro. E quando o discurso aquece demasiado, não é só o Parlamento que ferve — é o país inteiro.
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