“Olhão tem um caminho”, diz o lema da candidatura socialista às próximas autárquicas. E tem, sim senhor. O problema é que, a continuar assim, esse caminho parece levar diretamente a um Olhão de fachada — feito à medida do turista, centrado na baixa, polido para agradar a quem cá passa, mas cada vez mais distante de quem cá vive – mais distante dos Olhanenses.
Começou-se com a cultura. Em vez de a valorizar, decidiram “modernizá-la”. A nova marina — construída por privados — é o símbolo perfeito disto tudo: uma tentativa falhada de transformar Olhão numa Vilamoura em ponto pequeno, cheia de fachadas vistosas, mas sem alma.
Depois, a BelaOlhão foi vendida para dar lugar a um empreendimento hoteleiro direcionado para os de fora. E, para completar o cenário, fala-se numa possível transformação da doca de pesca numa marina, afastando de vez os pescadores que dão alma a esta terra. No lugar onde se carrega a história viva de Olhão, querem pôr barcos de luxo a flutuar sobre as raízes de quem aqui sempre viveu do mar. A cidade onde se nascia já com os pés dentro da ria, vai-se transformando aos poucos num parque de estacionamento de iates com bandeiras estrangeiras de quem não sabe o que é acordar de madrugada para lançar redes.
E falando em estacionamento: onde param os olhanenses? Literalmente, onde? A baixa está transformada numa corrida por lugares de estacionamento — a maioria pagos — e nem os moradores têm lugar garantido. Num vídeo que circula por aí, vêem-se turistas a discutir onde estacionar, mas não se veem olhanenses. Porque os olhanenses já se habituaram a perder o seu espaço, nas ruas e na alma da cidade.
No fundo, o que está em causa é a identidade Olhanense — aquela mistura de tradição, trabalho duro, e espírito comunitário que moldou esta terra durante séculos. Essa identidade está a ser sacrificada em nome de uma visão economicista que olha para Olhão como mais um destino turístico, descartando as gentes que lhe deram alma. Não é só uma questão de espaços ou património; é uma questão de respeitar quem somos e para onde queremos ir.
Se o executivo PS e o seu candidato insistem neste caminho, resta aos Olhanenses uma decisão: aceitar passivamente a perda da sua identidade ou reagir para recuperar o seu espaço. Porque Olhão não é só uma imagem para turistas; é uma comunidade viva que merece ser ouvida e respeitada. É tempo de pôr fim a esta estratégia que transforma Olhão numa montra para visitantes, esquecendo quem aqui nasceu e cresceu.
O verdadeiro futuro de Olhão não pode passar por apagar as suas raízes, mas sim por valorizá-las. A verdadeira mudança só acontecerá quando os Olhanenses voltarem a ser o centro do caminho da sua cidade — não apenas espectadores, mas donos do seu próprio destino.
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