O nosso país sempre foi um espaço de partidas e de chegadas, em que carregava a ânsia de alcançar e nunca estar satisfeito. Foi nesses fluxos, inscritos na mobilidade de cada época, que os seus homens e mulheres foram vivendo o âmago cru das sensações que despertavam em cada canto, construindo a sua história, a sua geografia, a sua cultura.
Hoje, sem que tenhamos abandonado o êxodo, tudo parece ter mudado ao propalar-se uma espécie de sentimento de “subversão migratória”. Agita-se a ideia de que não nos reconhecemos mais no país, nos seus modos de vida e cultura, emergindo aí um negativismo ou mesmo a rejeição do fenómeno migratório, com maior ou menor incidência em certos grupos.
Parte do pensamento político em Portugal foi gradativamente concedendo um peso crescente a um cunho socio-histórico de inconformidades culturais dos imigrantes, associadas a um negativismo discriminatório e à formação de estereótipos preponderantemente associados aos povos indostânicos, ou a grupos étnicos identificados como muçulmanos.
Estes aspetos demográficos não são lineares na perceção do sentimento da dita “subversão migratória”, conquanto a assimetria parece evidente em todas as suas relações cerceadas, relativamente a indivíduos autodeterminados.
O imigrante passa, assim, à condição de figura ambivalente, que tanto nos é permitido integrar, como distanciar ou excluir. Tomando como referência a figura do imigrante, é nela que se plasmam os problemas da rigidez das formas sociais a ponto de problematizarmos a condição social dos seus filhos.
Não é nas diferenças culturais, mas da mobilização dessas diferenças que melhor se pode compreender a lógica de sentido quanto ao modo como o nosso povo, emigrante de longa data, lida com a falta de reciprocidade social.
Distorções? Imperativos de regulação? Não é isso que está em causa, conquanto essas matérias integram a fumaça política dominante.
Na conta de uma inédita emotividade, confunde-se a atribuição da cidadania portuguesa a filhos de pais estrangeiros, com a atribuição da nacionalidade. Não se entende que enquanto esta representa a pertença e partilha de vínculos históricos e culturais com um grupo de pessoas, a cidadania relaciona-se com um vínculo político entre uma pessoa física e uma pessoa jurídica – no caso, o Estado.
Nesta confusão, a nossa relação com o estrangeiro/estranho tangencia boa parte da leitura que Simmel faz a respeito dos tipos sociais, pois as relações modernas, pautam-se cada vez mais pelo cálculo financeiro, pelo direito, a intelectualidade e a substituição de meios por fins. Os desníveis são mais acentuados, até mesmo porque os agentes das trocas não se relacionam com indivíduos autodeterminados. Não quererão também eles dar sentido ao trabalho e ao esforço, em prol de algo maior, pelo que as relações de troca não podem ser exclusivamente utilitaristas ou económicas? Basta levarmos em consideração que “as relações mais finas e firmes vinculam-se frequentemente” ao sentimento de gratidão, pelo que os nossos sapientes governantes não se cansam de tomar a parte pelo todo.
A par disso é, no mínimo, curiosa uma ideia de sociedade como substância fixa na qual os nacionalismos se enquistam em relações sociais enrijecidas, de reciprocidades truncadas, em detrimento de uma perspetiva dinâmica, constitutiva da renovação das relações sociais.
Como se num célebre dia, por artes mágicas, tivéssemos deixado de ser os galaico-portugueses e, por força de uma peleja, tivéssemos firmado uma cristalização identitária no condado Portucalense, espaço imaginário a ser guardado como se a cultura pudesse ser mantida como uma relíquia fossilizada.
No mínimo, ficar-nos-ia bem um amplo debate, que abordasse o assunto sensível da identidade portuguesa com a profundidade que se imporia. O que é ser português? Que peculiaridade cultural é a nossa? O que isso traz como direitos? O que isso impõe como deveres? O que isso implica em termos de vantagens? No quê acreditamos quando nos assumimos como portugueses?
Ainda haverá quem questione, nos versos de Camões, quem somos e o que queremos, tentando achar nele os imaginários genes lusitanos que nos correriam no sangue? Onde e como conhecemos a nossa história e a daqueles que nos criaram? Aprendemos a orgulhar-nos das nossas raízes, a respeitar a tradição e olhar com fascínio os mitos e lendas de que somos feitos para continuar a escrever uma história de identidade?
Destarte, nessa compreensão da sociedade como espaço de trocas constantes, não estará em falha uma reflexão acerca da experiência humana dos indivíduos que, à falta de melhor conceito, designaríamos “figuras párias”?
É claro que a noção prevalecente de integração social traduz-se como hegemónica exigência de que os imigrantes tenham padrões de interação que correspondam a conteúdos (sentimentos, impulsos etc.) que são os nossos, os que nos dão vida. É assim que se restringe a possibilidade de operarem por própria conta, visando impulsionar as suas vidas como recetáculos de relações que se ajustem a nós.
Observados a partir dessa perspetiva, os que ontem eram orgulhosamente nacionais são hoje estranhos PALOPS, de que lhes ficou o português como língua oficial, passando a entrar no ciclo de relações sociais de troca pouco recíprocas. Apesar de serem cidadãos pertencentes à realidade histórica da sociedade em que viveram, foram todos destituídos dessa condição de portugalidade. Exceções flagrantes que as há, temo-las num Eusébio, que tendo suscitado lutas pela sua memória, se mantém como figura erigida à condição de ícone cuja heroicidade futebolística empresta, no panteão, honras de cidadão nacional.
Em boa verdade, o estrangeiro, não é senão uma designação que se empresta a uma forma fixa de aprisionar as experiências humanas, através da qual se desenha uma estratégia típica de toda a dominação que repousa numa “tirania subjetiva”, transformando o poder em direito.
Tem dias em que dou comigo a questionar-me se o povo português, em cuja mentalidade nos sentimos ancorados, terá algum tipo de dignidade diferente de outros povos. Ditar-nos-á a experiência, que somos superiores a outros grupos humanos?
Insistindo-se na ideia de que ”o que é nacional é bom”, força-se aí uma interpretação heroica de um processo histórico de constituição da portugalidade. Para o efeito, fazemo-la radicar uma narrativa essencialista, como se houvesse nesse processo um “selo puro e autêntico” na dita cuja. Seria salutar que pensássemos que as construções sociais, em cuja mentalidade nos sentimos ancorados, por certo que não têm um tipo de dignidade diferente de outros povos.
Faria sentido pensarmos que se vale a pena continuarmos a desafiar ventos e marés à procura de um mundo novo, não deverá ser para o possuir, mas para nele abrir horizontes onde caibam todos os humanos, persistindo em aprender a sonhar com um mundo maior e melhor.
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