Segundo o Correio da Manhã, o Governo de Luís Montenegro decidiu contratar serviços de maquilhagem e cabeleireiro para preparar ministros antes de falarem ao país. Finalmente, uma reforma estrutural.
Durante anos julgámos que os grandes problemas nacionais eram a saúde, a habitação ou os salários. Afinal, não. O verdadeiro drama da República eram as olheiras. Como foi possível ignorar durante tanto tempo esta chaga social?
É reconfortante saber que, aconteça o que acontecer — hospitais em rutura, alunos sem professores — haverá sempre alguém armado de pincel largo pronto a salvar a dignidade institucional de uma testa brilhante. O país pode arder, mas jamais luzirá em excesso.

Jurista
A base, ao contrário das políticas públicas, tem uma vantagem notável: funciona à primeira aplicação. Disfarça imperfeições, uniformiza o tom, cria a ilusão de solidez
Não é uma despesa escandalosa? Talvez não. Não é ilegal? Ao que consta, não. Mas há decisões que são pequenas no orçamento e gigantes na metáfora. Esta é uma delas.
Porque revela uma prioridade subtil: a política como encenação permanente. Não basta governar — é preciso estar fotogénico enquanto se governa. A mensagem pode ser dura, mas a pele deve ser suave. O discurso pode ser frágil, mas o cabelo tem de aguentar.
Vivemos na era da imagem, dirão. E é verdade. Mas há uma diferença entre comunicar bem e transformar o Conselho de Ministros numa extensão do camarim. Entre preparar uma intervenção e institucionalizar o retoque.
E no entanto, o mais admirável é a naturalidade. Como se fosse evidente que, num país onde faltam médicos, o essencial fosse garantir que o ministro não parece cansado. Como se o problema nunca fosse o cansaço real, mas a aparência dele.
Talvez esta seja, afinal, a grande estratégia nacional: se a realidade não melhora, melhora-se o enquadramento. Se o resultado não convence, capricha-se na iluminação. É a governação em modo filtro.
No fundo, é coerente. Num tempo em que tudo é performance, o Estado limita-se a ensaiar. O palco está montado, a plateia paga — literalmente — e o espetáculo não pode ter brilho a mais na testa.
Talvez o próximo passo seja substituir o programa do Governo por um manual de styling. Em vez de metas orçamentais, um guia de contorno facial. Em vez de reformas estruturais, uma base de longa duração — dessas que prometem fixar tudo, menos a realidade.
Porque a base, ao contrário das políticas públicas, tem uma vantagem notável: funciona à primeira aplicação. Disfarça imperfeições, uniformiza o tom, cria a ilusão de solidez. Pena que não cubra listas de espera, nem preencha buracos na escola pública.
No fim, é isso que inquieta. Não a maquilhagem em si — que é instrumento, não pecado — mas o símbolo. A ideia de que governar é, antes de mais, parecer. Que o essencial não é resolver, mas resistir à alta definição.
E talvez seja esse o verdadeiro estado de graça: quando a superfície está tão bem preparada quase nos esquecemos de perguntar pelo conteúdo. Até que a luz mude. Porque muda sempre. E aí, nem a melhor base do mercado segura a realidade.
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