Há histórias que doem porque revelam falhas que nunca deveriam acontecer. Um idoso com apneia do sono, dependente de um CPAP para conseguir respirar durante a noite, estava – conforme reportagem televisiva – havia vários dias impossibilitado de usar o aparelho porque a eletricidade ainda não fora restaurada desde a intempérie Kristin. Dias inteiros. No escuro. Sem o equipamento que o mantém vivo enquanto dorme.
É impossível não sentir revolta.
A apneia do sono não é um incómodo menor. Cada pausa respiratória é um sobressalto para o corpo, uma agressão silenciosa ao coração, ao cérebro, à vida. O CPAP não é um acessório; é um escudo. É aquilo que impede que a noite se transforme num risco real. E, ainda assim, este idoso foi deixado à sua sorte, como se a sua necessidade fosse secundária, como se respirar fosse um luxo que pode esperar.

Jurista
Ninguém, absolutamente ninguém, deveria adormecer com medo de não acordar só porque a eletricidade não voltou
O que custa mais aceitar é que tudo isto era evitável. Como é possível que, sabendo-se que existem pessoas dependentes de dispositivos médicos elétricos, não tenha sido disponibilizado um gerador de emergência? Como se explica que ninguém tenha garantido acolhimento temporário num local com eletricidade, onde pudesse dormir em segurança? Como se justifica que um ser humano vulnerável tenha sido deixado a enfrentar noites inteiras sem o aparelho que o mantém a respirar?
Não estamos a falar de conforto. Estamos a falar de sobrevivência.
Quando falham as infraestruturas, falha também a proteção dos mais frágeis. E quando falha essa proteção, o que se revela é uma sociedade que ainda não aprendeu a cuidar dos seus. Uma sociedade que reage à tempestade, mas esquece quem fica para trás depois dela.
Este caso deveria ser um grito de alerta. Deveria obrigar-nos a repensar prioridades, protocolos e respostas de emergência. Deveria lembrar-nos que, por trás de cada casa sem luz, há vidas reais — e algumas delas dependem de algo tão simples quanto uma tomada a funcionar.
Porque ninguém, absolutamente ninguém, deveria adormecer com medo de não acordar só porque a eletricidade não voltou.
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