Há um descontentamento crescente com o jornalismo dos nossos dias. Muitos cidadãos deixaram de confiar nos meios de comunicação social, convencidos de que estes já não informam: orientam. Já não relatam: moldam. Já não procuram esclarecer os factos: procuram enquadrá-los segundo uma determinada visão do mundo.
A crítica não surge do nada. Basta acompanhar uma parte significativa da informação produzida atualmente para perceber que a fronteira entre notícia, comentário, ativismo e propaganda se tornou, em muitos casos, perigosamente ténue. Há causas que parecem merecer tratamento privilegiado, opiniões que recebem proteção especial e factos que, consoante a conveniência, são ampliados ou relegados para notas de rodapé.
Mas, ao mesmo tempo, importa evitar um erro frequente: confundir os jornalistas com o sistema mediático em que trabalham.

Jurista
A independência da imprensa não depende apenas da liberdade de quem escreve; depende também da liberdade perante quem manda
É cómodo disparar contra quem aparece no ecrã, assina a reportagem ou conduz a entrevista. O rosto é visível; os verdadeiros centros de decisão, não. Contudo, os jornalistas raramente são os donos dos jornais, das televisões ou das rádios onde exercem funções. Não escolhem os acionistas, não definem estratégias empresariais nem controlam os interesses económicos que gravitam em torno dos grupos de comunicação social.
E é precisamente aí que reside uma parte substancial do problema.
Ao longo dos anos, a comunicação social foi-se concentrando nas mãos de grandes grupos económicos. A informação passou a coexistir com interesses financeiros, empresariais e políticos que muitas vezes nada têm que ver com o direito dos cidadãos a serem informados de forma livre e rigorosa. Os media transformaram-se em negócios, e os negócios, como se sabe, procuram rentabilidade, influência e poder.
Seria surpreendente que essa realidade não produzisse consequências.
Quem paga determina prioridades. Quem investe espera retorno. Quem detém a propriedade dificilmente será indiferente à linha editorial dos órgãos que controla. Nem sempre através de ordens explícitas. Nem sempre por meio da censura grosseira de outros tempos. Hoje, os mecanismos são mais sofisticados e, por isso mesmo, mais eficazes.
Não é necessário proibir uma investigação incómoda. Basta não a incentivar. Não é preciso mandar elogiar alguém. Basta promover sistematicamente quem o faz. Não é indispensável despedir um jornalista incómodo. Basta fazê-lo compreender que determinadas insistências podem não favorecer a sua progressão profissional.
A autocensura, quase sempre invisível, é frequentemente mais poderosa do que a censura declarada.
Perante este cenário, convém recordar uma evidência muitas vezes esquecida: os jornalistas também têm contas para pagar. Também têm filhos para criar, prestações para liquidar e carreiras para proteger. Como qualquer trabalhador, sabem que a sua permanência numa organização depende, em maior ou menor grau, da relação que mantêm com quem a dirige.
Isso não os transforma automaticamente em cúmplices. Transforma-os, muitas vezes, em profissionais obrigados a navegar entre a fidelidade à sua consciência e as exigências do meio onde trabalham.
Naturalmente, existem maus jornalistas. Existem profissionais incompetentes, militantes disfarçados de repórteres e comentadores que confundem informação com catequese ideológica. Seria absurdo negá-lo. Mas também existem muitos outros que continuam a tentar exercer a profissão com dignidade, apesar das limitações e pressões que enfrentam.
Por isso, quando criticamos o estado da comunicação social, talvez devamos perguntar quem realmente beneficia daquilo que é publicado, destacado ou omitido. Quem ganha com determinada narrativa? Quem controla os recursos? Quem define as prioridades? Quem tem poder para contratar, promover ou afastar?
As respostas a estas perguntas conduzem-nos quase sempre para longe da secretária do jornalista e para perto dos gabinetes onde se tomam as decisões que verdadeiramente contam.
Uma imprensa livre continua a ser condição indispensável de qualquer democracia digna desse nome. Mas dificilmente existirá verdadeira liberdade de informação enquanto muitos jornalistas permanecerem sujeitos a estruturas cuja prioridade não seja a procura da verdade, mas a defesa de interesses económicos, políticos ou ideológicos. A independência da imprensa não depende apenas da liberdade de quem escreve; depende também da liberdade perante quem manda.
Talvez tenha chegado o momento de deixar de matar o mensageiro e começar a escrutinar quem lhe condiciona a mensagem.
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