É compreensível — ainda que nem sempre justificável — que alguém nascido em berço de ouro tenha dificuldade em compreender a pobreza. Afinal, quem nunca precisou de escolher entre pagar a conta da luz ou comprar medicamentos, dificilmente saberá o que é viver com carência.
Mais difícil de aceitar, contudo, é o caso de quem nasceu em contextos desfavorecidos, beneficiou do esforço dos pais ou avós — muitas vezes analfabetos, mas sábios no coração —, estudou, cresceu, formou-se, prosperou… e esqueceu. Esqueceu não só de onde veio, mas também quem lhe estendeu a mão, quem o alimentou quando o futuro ainda era uma hipótese. E, pior ainda, há quem não só esqueça, mas se envergonhe do passado humilde, como se tivesse sido um fardo sujo em vez de uma base digna.

Jurista
Se a pobreza é, em muitos casos, uma condição imposta, esquecer-se dela por escolha é, muitas vezes, uma traição. E não apenas ao passado, mas a si mesmo
Esta atitude, infelizmente comum, levanta questões sobre o modo como a sociedade encara a mobilidade social. Ter sucesso parece, para muitos, implicar apagar as marcas da pobreza, substituir o sotaque, mudar de círculo social e, nalguns casos, olhar com desdém para os que ficaram para trás — os mesmos que, em tempos, partilharam o pouco que tinham.
A vergonha da pobreza interioriza um preconceito profundamente enraizado: o de que ser pobre é sinónimo de fracasso ou ignorância. Quem dela saiu, para não correr o risco de ser confundido com os “de baixo”, renega o passado e tenta moldar-se a um novo perfil, socialmente aceite e «civilizado». Esse esforço revela não tanto uma conquista, mas uma forma de alienação — um corte com a própria história.
Isto não significa que todos os que sobem na vida devam carregar para sempre o peso das dificuldades ou viver de mãos dadas com o passado. Mas há uma diferença entre querer melhores condições e desprezar quem ainda vive como se viveu. Há uma diferença entre mudar e fingir que nunca se foi outro.
Na verdade, a gratidão deveria andar lado a lado com o progresso. Reconhecer as origens, valorizar o percurso, respeitar os que contribuíram para que hoje se tenha uma vida melhor — isso é maturidade social. Isso é verdadeira elevação.
Se a pobreza é, em muitos casos, uma condição imposta, esquecer-se dela por escolha é, muitas vezes, uma traição. E não apenas ao passado, mas a si mesmo.
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