Alguns de nós ficam presos ao impacto negativo que as histórias de crime real têm e evitam assistir a filmes, séries, documentários ou podcasts com este tipo de conteúdo. Ainda assim, a investigação sugere um aumento do interesse por estas narrativas na população geral, o que nos leva a questionar o que verdadeiramente nos atrai nas histórias de crime real.
Importa esclarecer, desde logo, que este interesse não significa um gosto pelo macabro. Resulta antes da combinação entre a curiosidade natural sobre comportamentos violentos, desvio e morte, frequentemente designada de curiosidade mórbida, e a necessidade de compreender o comportamento humano, procurando dar sentido a acontecimentos moralmente perturbadores. Esta curiosidade pode ter também uma função adaptativa, ajudando-nos a aprender sobre ameaças e a perceber como situações perigosas podem acontecer, funcionando como uma espécie de simulação mental de risco.
As narrativas de crime real apresentam-se, muitas vezes, de forma envolvente. Há um mistério por resolver, uma investigação em curso, a procura de respostas, a revelação final e a expectativa de justiça. Funcionam como um puzzle em que tentamos perceber como é que as peças mais difíceis se encaixam. Ao mesmo tempo, permitem-nos lidar simbolicamente com a ansiedade ou com o medo num contexto seguro, no conforto da nossa casa.
O confronto com os limites da natureza humana desperta inevitavelmente a pergunta: “Como é que alguém é capaz de fazer isto?”. Esse confronto ajuda-nos também a reafirmar os limites entre o normal e o desviante e os pressupostos morais que estruturam a vida em sociedade. Por um lado, a indignação perante o crime promove a identificação e a empatia com as vítimas. Por outro, a condenação do agressor, muitas vezes visto como alguém fora da normalidade, ajuda-nos a criar distância em relação à maldade e a proteger a ideia de que o mundo é, na maior parte das vezes, relativamente previsível.
Este processo contribui para a reafirmação da nossa identidade moral, funcionando como uma confirmação interna do que consideramos certo e errado. Ao mesmo tempo, reforça, a nível coletivo, os valores e limites que organizam a vida em sociedade. Se estas histórias despertam a sensação de vulnerabilidade, como quando pensamos “Isto podia acontecer comigo?”, o seu percurso narrativo permite, muitas vezes, recuperar uma sensação de ordem e segurança.
Algumas investigações indicam que as mulheres consomem mais este tipo de conteúdos, estando este interesse associado a uma forma de aprendizagem preventiva sobre o risco e a uma vigilância defensiva. Este dado ganha particular relevância quando consideramos que, em determinados tipos de crime, como a violência doméstica ou a violência sexual, as vítimas são maioritariamente mulheres. Estas narrativas podem, assim, contribuir para uma maior atenção a sinais de perigo e estratégias de manipulação, reforçando a sensação de preparação perante situações de risco, ainda que essa perceção possa ser, em parte, ilusória.
Importa, no entanto, reconhecer que nem todas as produções de crime real são isentas de riscos. Algumas podem contribuir para a espetacularização da violência, para um foco excessivo no agressor ou para uma perceção distorcida da prevalência do crime. Por outro lado, quando abordadas de forma responsável, podem aumentar a consciência social sobre a violência, dar visibilidade às vítimas e estimular o debate sobre justiça e prevenção.
No fundo, o fascínio pelo crime real diz-nos menos sobre uma atração pelo lado sombrio e mais sobre uma necessidade profundamente humana de compreender, antecipar e dar sentido ao que nos inquieta. Talvez seja também uma forma de nos lembrarmos de que, mesmo perante o desvio, continuamos a precisar de referências, de limites e de valores que nos ajudem a organizar a experiência humana e a sustentar a vida em sociedade.
Leia também: Famílias separadas e bem-estar das crianças e jovens | Por Neusa Patuleia e Catarina Rivero















