Há quem diga que para subir na vida é preciso esforço, dedicação e uma pós-graduação em Excel. Ingenuidade pura. No mundo real — nomeadamente no mundo da repartição pública — o verdadeiro motor da ascensão profissional, contudo, nem sempre é o mérito, mas o saber sorrir afetuosamente e possuir outras qualidades conexas.
Por exemplo, a funcionária – vamos chamá-la de “Dona Ascensão” – é um prodígio da mobilidade interna. Não sabe distinguir um decreto-lei de uma receita de arroz de pato, mas tem uma habilidade rara: está sempre no sítio certo, ao lado da pessoa certa, com um doce sorriso.

Jurista
"Subiu sem fazer barulho. Sem fazer ondas. Sem fazer… nada, na verdade. Mas está lá. Nomeada 'Chefe' em 'regime de substituição'"
Enquanto os colegas se afogam em grelhas de avaliação e planos de formação, «Dona Ascensão» navega com leveza por gabinetes e corredores, distribuindo simpatia como quem distribui senhas na Segurança Social. Não precisa de currículo — tem carisma. Não precisa de competências — tem convivência. E não precisa de concursos — tem convites.
Há quem a critique, claro. Os invejosos, os tecnocratas, os que ainda acreditam que o mérito é um critério. Pobres almas. Não percebem que, no grande teatro da função pública, o talento mais valorizado, por vezes, é saber quem, na respetiva hierarquia, apreciará uma infusão valeriana para destressar e levar-lhe uma chavenazinha dela, assim como, a quem de direito, informar de «nocivos» ambientes de trabalho. E nisso, «Dona Ascensão» é doutorada.
Subiu sem fazer barulho. Sem fazer ondas. Sem fazer… nada, na verdade. Mas está lá. Nomeada «Chefe» em «regime de substituição». Reconhecida. E com um gabinete onde o ar condicionado funciona. Porque, no fim, o que conta não é o que se sabe — é quem se conhece, a quem se sorri afetuosamente e informa.
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