Por estes dias, Portugal arde. Arde com fúria. Arde com desespero. Arde com a resignação de quem já sabe, de antemão, que nada mudará — nem as cinzas, nem os rostos, nem os discursos. A cada verão, repete-se o mesmo ritual de desgraça: o país transforma-se numa pira funerária onde se queimam florestas, habitações, esperanças e, por vezes, até a própria decência.
Mas desenganem-se os mais crédulos: há uma parte deste reino que permanece imune às labaredas. Uma classe à parte. Enquanto as chamas consomem serras e aldeias, os nossos governantes — esses excelentíssimos senhores de fato leve e consciência ainda mais leve — bronzeiam-se em paz. Não em cinzas, mas em sol. Não em sirenes, mas em marés.

Jurista
O que nos devora não são apenas as chamas — é esta indiferença incendiária que começa no topo e alastra-se como fogo posto à esperança
É um espetáculo de insensibilidade que rivaliza com o mais trágico dos teatros. Famílias fogem, bombeiros tombam, o ar torna-se irrespirável — e os senhores tiram selfies no areal. A tragédia do povo parece-lhes um inconveniente climatérico, um eco distante abafado pelo som das ondas. É agosto, afinal, e agosto, nesta terra, é sagrado. Ardem os pinhais, mas não se interrompem as férias.
E nem se pense que isto é novidade. Desde os tempos em que D. Sebastião se perdeu no nevoeiro que o país vive governado por ausências. Agora, os nevoeiros são de fumo, mas a cegueira é a mesma. As mesmas promessas vazias, os mesmos planos mirabolantes que nunca passam do PowerPoint, os mesmos discursos carregados de consternação seletiva — sempre à distância segura do helicóptero.
Fala-se de resiliência, como se o povo português fosse feito de amianto. Mas não é. É feito de carne, de pulmões que ardem, de lágrimas que não se evaporam com o calor. E enquanto as câmaras captam imagens de valentes bombeiros exaustos, dormindo no chão, cobertos de fuligem e silêncio, os ministros repousam em resorts, talvez a pensar numa declaração bonita para o regresso. Algo comovente, mas vago. Algo que não os comprometa com nada — como sempre.
O mais trágico, porém, não é a ausência. É a normalização dessa ausência. Tornou-se aceitável que quem governa este país o faça por teletrabalho de luxo. Tornou-se normal que a solidariedade se exprima por via de tweets, enquanto a terra queima sob os pés daqueles que nunca abandonaram o terreno.
Talvez este seja, afinal, o verdadeiro milagre português: sobreviver todos os anos ao descaso institucional, à indiferença encastelada, ao abandono pintado com as cores do verão. Porque Portugal arde, sim. Mas o que nos devora não são apenas as chamas — é esta indiferença incendiária que começa no topo e alastra-se como fogo posto à esperança.
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