Na administração pública, há figuras que não apenas ocupam cargos — encenam funções. Uma delas é o Senhor Diretor. Não um diretor qualquer, mas Diretor com D grande, símbolo de uma cultura onde o parecer vale mais do que o saber e a cerimónia substitui a competência.
O seu percurso é conhecido por muitos que trabalham em serviços públicos. Começa como funcionário discreto, mas atento. Não se destaca pelo trabalho, mas pela presença estratégica: está sempre onde deve estar, ao lado de quem manda, com sorriso ensaiado e reverência pronta. A sua promoção não vem por mérito — essa palavra cada vez mais esquecida — mas pela arte da bajulação e da lealdade bem posicionada.

Jurista
O Diretor é um artista do vazio. Parece ocupado, parece influente, parece que sabe. Só não sabe. Mas isso nunca foi obstáculo. Porque na administração pública, saber é opcional — sobreviver é essencial
Uma vez promovido, primeiro em «regime de substituição», depois definitivamente pelo «currículo» que se diz, entretanto, terá passado a ter, o Diretor muda. Já não anda pelos corredores: desliza. Já não conversa com colegas: envia-lhes comunicados. O café deixa de ser café — é “expresso”. Os subordinados deixam de ser parceiros — são obstáculos ao seu brilho. E não tarda a aplicar a famosa “reestruturação dos serviços”, que na prática significa encaixar familiares e amigos, afastar os incómodos.
Neste teatro institucional, quem trabalha bem é ignorado. Quem sabe mais do que o Diretor é visto como ameaça. Porque nada assusta mais um Diretor do que alguém que entende do que ele apenas finge dominar.
O Diretor é um artista do vazio. Parece ocupado, parece influente, parece que sabe. Só não sabe. Mas isso nunca foi obstáculo. Porque na administração pública, saber é opcional — sobreviver é essencial.
E nisso, ele é imbatível. Como uma mancha de café em papel timbrado: inútil, mas permanente.
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