Um estudo liderado por investigadores ligados à Universidade do Algarve está a trazer novos dados sobre as fases mais precoces do desenvolvimento dos Neandertais, a partir da análise de raros ossos e dentes infantis descobertos em Sesselfelsgrotte, no sudeste da Alemanha.
A investigação foi realizada no âmbito do projeto SHARP, financiado pela National Geographic, e liderada por Alvise Barbieri, investigador do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano, ICArEHB, da Universidade do Algarve.
O estudo analisou fósseis com cerca de 75 mil a 50 mil anos, recorrendo a microtomografia computorizada não invasiva, conhecida como micro-CT, permitindo observar estruturas internas sem danificar os vestígios.
Os resultados, publicados na revista Royal Society Open Science, indicam que o crescimento ósseo fetal dos Neandertais era, em grande medida, semelhante ao dos humanos modernos, embora alguns ossos revelem sinais de desenvolvimento localmente mais acelerado.
Fósseis raros ajudam a compreender crescimento pré-natal
A equipa analisou ossos e dentes decíduos de três indivíduos juvenis. Um deles, identificado como Sesselfelsgrotte 1, corresponde a um indivíduo perinatal representado por fragmentos esqueléticos. Os outros dois, Sesselfelsgrotte 2 e 3, são conhecidos a partir de molares decíduos.
“A microestrutura óssea de Sesselfelsgrotte 1 indica um estágio de desenvolvimento correspondente ao final do terceiro trimestre de gestação, confirmando estimativas anteriores”, explica Justyna J. Miszkiewicz, da University of Queensland e autora principal do estudo.
Segundo a investigadora, os ossos analisados apresentam características típicas de um esqueleto imaturo em rápido crescimento, incluindo elevada vascularização e ausência de osteões secundários.
Ainda assim, alguns ossos longos, como o fémur e o úmero, apresentam zonas com maior compactação e organização estrutural, o que poderá apontar para um desenvolvimento local mais rápido.
Os autores sublinham, contudo, que a trajetória geral de crescimento observada parece ser amplamente comparável à dos humanos modernos nesta fase inicial da vida.
A Universidade do Algarve destaca que a raridade de ossos e dentes fetais e infantis de Neandertais torna este estudo particularmente relevante, acrescentando novos elementos ao debate sobre as semelhanças e diferenças no desenvolvimento entre Neandertais e Homo sapiens.
Dentes revelam possíveis sinais de stress fisiológico
As análises identificaram também alterações invulgares na dentina de dois molares decíduos.
“As imagens de micro-CT revelaram defeitos de mineralização no interior da dentina dos dois molares decíduos de Sesselfelsgrotte 2 e 3, associados a interrupções no processo de formação dentária”, refere Ricardo Miguel Godinho, coautor principal do estudo e investigador do ICArEHB, da Universidade do Algarve.
Embora não seja possível determinar uma causa específica, este tipo de alteração pode estar associado a perturbações fisiológicas, como deficiência de vitamina D, deficiência de cálcio ou absorção comprometida de cálcio.
Como estas estruturas se formam entre o final da gestação e os primeiros anos de vida, os dentes poderão conservar registos de episódios de stress fisiológico muito precoce.
Segundo os autores, estes molares poderão representar uma das evidências mais antigas de dentina interglobular em Neandertais, com cerca de 75 mil anos, sugerindo a ocorrência de stress metabólico nas fases iniciais da vida, embora a sua origem exata permaneça incerta.
“Como os ossos e dentes fetais e infantis de Neandertais são tão raros, mesmo um pequeno conjunto de vestígios pode transformar o que sabemos sobre o seu desenvolvimento inicial. Estes espécimes mostram que o crescimento pré-natal dos Neandertais era, em muitos aspetos, notavelmente semelhante ao nosso, ao mesmo tempo que preservam possíveis sinais de stress fisiológico nas fases iniciais da vida”, sublinham os investigadores.
Para além das implicações para o conhecimento da biologia dos Neandertais, o estudo demonstra o potencial da microanatomia virtual para investigar fósseis frágeis sem recorrer a técnicas destrutivas.
Futuras investigações, com maior resolução e abordagens complementares, poderão aprofundar o conhecimento sobre o desenvolvimento precoce e a saúde destes indivíduos, reforçando o contributo da investigação desenvolvida a partir do Algarve para o estudo da evolução humana.
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