Há quem se espante com a pressa dos jovens para chegar às clínicas de cirurgia e medicina estética, como se houvesse uma urgência no corpo, uma doença que não aparece nas análises, mas que o espelho denuncia. Talvez a resposta esteja menos na vaidade de cada um do que no mundo que construímos à nossa volta.
Vivemos num tempo em que o corpo deixou de ser apenas o lugar onde moramos. Tornou-se uma obra, aparentemente nunca acabada: há sempre algo para corrigir, consertar ou esconder. O corpo tornou-se projeto.
Todos os dias, a televisão, as revistas, os programas de saúde, as publicações de estilos de vida e as redes sociais ensinam-nos como comer, dormir, envelhecer, emagrecer, conservar a juventude e até ser felizes — quase sempre em nome da saúde.
Falam-nos dos riscos e, logo depois, oferecem-nos a salvação: uma dieta, um tratamento, um suplemento, um ginásio, um SPA ou uma cirurgia. Primeiro dizem-nos que há algo a temer; depois mostram-nos o que devemos comprar para deixar de ter medo. Foi assim que o mercado aprendeu a conversar com a nossa insegurança.
Por detrás desta enorme fábrica de informação estão médicos, investigadores, especialistas, marcas, revistas, empresas e influenciadores, todos participando, à sua maneira, na fabricação de uma nova ideia de corpo e de saúde. Não nos dizem apenas como cuidar de nós, mas também quem devemos ser — e, sobretudo, quem devemos parecer.
É o que alguns pensadores chamaram “cultura do self”: a ideia de que cada pessoa é responsável pela construção permanente de si mesma. Já não recebemos apenas um corpo; recebemos uma tarefa. Temos de o administrar, vigiar, melhorar e, se necessário, refazer. O corpo é uma obra em construção em que o arquiteto e o operário são a mesma pessoa.
A promessa parece atrativa: cuidar de nós para viver melhor, envelhecer melhor, prevenir doenças e alcançar bem-estar. Mas toda promessa de liberdade pode esconder uma obrigação. Já não basta estar saudável; é preciso parecê-lo. O corpo deve ser jovem, elegante, desejável e reconhecido aos olhos dos outros. A saúde deixou, assim, de morar apenas nos consultórios: mudou-se para o espelho.
Entre os mais jovens, esta transformação torna-se particularmente visível. O corpo aprende cedo a ser comparado. Antes mesmo de aprender a gostar de si, aprende a medir-se pelos outros. Os ecrãs oferecem corpos sem história: sem rugas, marcas, cansaço ou tempo. Nasce então a sensação de que há sempre algo para melhorar: o nariz, os dentes, a pele, o cabelo, a barriga, os lábios, o peso — uma lista interminável.
A medicina estética entra, assim, num território que já não pertence apenas à medicina. Entra no desejo de ser reconhecido, amado e aceite. O corpo transforma-se num cartão de visita: é através dele que nos apresentamos ao mundo e que o mundo nos julga.
Durante muito tempo, a saúde foi sobretudo uma condição definida pela ciência e pelos médicos. Hoje, tornou-se também uma experiência íntima. Cada pessoa vigia os seus sinais, interpreta os seus riscos, pesquisa sintomas e decide como deve cuidar de si. Há, nisso, uma conquista: conhecer o próprio corpo pode significar maior liberdade. O problema começa quando o cuidado se transforma em vigilância obsessiva e a vigilância em culpa.
A sociedade moderna libertou-nos de muitos velhos mandamentos, mas não nos deixou sem mandamentos; apenas lhes mudou o nome: juventude, saúde, elegância, boa forma, desempenho, sexualidade. Já ninguém precisa de nos ordenar que sejamos perfeitos. Basta mostrar-nos, todos os dias, a imagem daquilo que deveríamos ser. E nós fazemos o resto. Tornámo-nos fiscais do nosso próprio corpo.
Cada indivíduo passou a gerir-se como uma pequena empresa: prevenir riscos, corrigir defeitos, aumentar o rendimento e prolongar a juventude. Até o corpo passou a ter produtividade. Queremos estar bem, mas também parecer bem; evitar adoecer, mas igualmente não parecer envelhecidos. Queremos viver muito, mas desejamos que o tempo não se note em nós. É aqui que saúde e aparência começam a trocar de roupa, tornando difícil saber onde acaba uma e começa a outra.
O mercado percebeu que há dinheiro na vontade de permanecer jovem, negócio no medo da doença e lucro na vergonha diante do espelho. Fomos sentindo o abraço apertado de seguros de saúde, ginásios, clínicas, SPA, produtos de beleza, suplementos e aplicações que contam passos, medem o sono, registam o coração e nos lembram que ainda não fizemos o suficiente. Até o descanso passou a precisar de instruções. A saúde tornou-se mercado e, com ele, a intimidade também.
Habermas chamou a este processo “colonização do mundo da vida”: quando as lógicas económicas entram nos territórios onde antes viviam sobretudo as relações humanas, a experiência quotidiana e a vida privada. Talvez o corpo seja hoje uma das fronteiras mais evidentes dessa colonização, porque já quase tudo se pode vender — até a promessa de sermos nós próprios.
Os meios de comunicação têm aqui um papel decisivo. Antes, recebíamos essas mensagens pela televisão, jornais e revistas; hoje carregamo-las connosco. Dormimos a seu lado, acordamos com elas e levamo-las para a mesa, o trabalho e a cama. O espelho passou a partilhar a parede e o bolso.
Diante desse espelho permanente, reciclamo-nos sem descanso. Há sempre uma versão melhor de nós à espera: mais magro, jovem, saudável, bonita ou desejável. O corpo tornou-se vulnerável e transformável. E, se podemos mudar quase tudo, passamos a acreditar que somos responsáveis por aquilo que não mudámos. A ruga torna-se falha; o envelhecimento, negligência; a doença pode transformar-se em culpa. A imperfeição deixa de parecer uma condição humana e passa a ser interpretada como falta pessoal.
Eis a grande contradição do nosso tempo: quanto mais livres somos para construir o nosso corpo, mais responsáveis nos sentimos por não conseguirmos construir o corpo perfeito.
Talvez por isso a gestão do corpo tenha adquirido uma importância que ultrapassa a própria saúde. Quando a política já não consegue responder a todas as nossas inquietações e as antigas referências religiosas deixaram de organizar a vida de muitos, procuramos no corpo aquilo que antes procurávamos noutros lugares: sentido, segurança e controlo.
Se não podemos mudar o mundo, mudamos o corpo. Se não conseguimos deter o tempo, tentamos apagar-lhe as marcas. Se não conseguimos vencer a morte, pelo menos adiamos os seus sinais.
É talvez por isso que tantos jovens chegam hoje às clínicas de estética. Não vão apenas à procura da beleza. Vão, muitas vezes, à procura de uma resposta.
A pergunta não é apenas “Como quero parecer?” A questão mais funda talvez seja: “Como preciso de parecer para ser aceite?”
E é aqui que o corpo deixa de ser apenas matéria. Torna-se linguagem, identidade e fronteira entre nós e os outros. Torna-se, finalmente, o lugar onde a sociedade escreve os seus medos, desejos e promessas.
Talvez tenhamos inventado uma nova religião sem perceber. Já não há altares: há espelhos. Já não há penitências: há dietas. Já não há confessionários: há clínicas. E, no lugar da salvação da alma, procuramos a salvação do corpo.
Porque, neste tempo de tantas liberdades e inquietações, talvez tenha acontecido algo estranho: deixámos de saber como salvar o mundo e começámos a tentar salvar-nos no espelho.
E talvez seja esse o verdadeiro paradoxo da modernidade: se já não temos alma para salvar, resta-nos o corpo.
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