Na declaração da Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ficou clara a urgência de reforçar uma Europa para dentro, uma Europa para os próprios europeus. No entanto, muitas pessoas, incluindo as comunidades com quem trabalhamos na Associação In Loco, sabem que pertencem à União Europeia, mas não compreendem verdadeiramente o que isso significa. Essa distância só se poderá reduzir se a Europa voltar a apostar em políticas próximas das pessoas, como aconteceu com o programa LEADER, uma das iniciativas mais transformadoras e participativas da história da União Europeia.
O LEADER foi uma das políticas mais transformadoras da União Europeia, inspirando modelos de governação participativa em toda a Europa. Nasceu para promover o desenvolvimento rural de base local, dando voz às comunidades, envolvendo cidadãos, organizações e autarquias, e valorizando as especificidades de cada território. Foi pensado para ser flexível, integrado e participativo. Os resultados provam que funciona, mas infelizmente, ao longo dos anos, foi perdendo espaço: menos financiamento, mais burocracia e menor autonomia local. Recuperar o espírito original deste programa, com as devidas atualizações, é essencial para que a União Europeia seja sentida por todos os europeus.
Também me parece evidente que as atuais modalidades de financiamento, com candidaturas curtas de dois ou três anos e taxas de apoio muitas vezes limitadas a 60%, não permitem transformações comunitárias robustas. Um verdadeiro processo de desenvolvimento exige tempo para diagnóstico, mobilização e confiança. Só com programas de dez anos ou mais é possível alcançar impacto real e sustentável. Não precisamos de repetir continuamente projetos-piloto: é fundamental dar continuidade ao muito bom trabalho já realizado.
Na declaração, faltou uma referência clara a desafios que, para regiões como o Algarve, são centrais. A crise hídrica é talvez o mais urgente: enfrentamos reservas em declínio, aquíferos em risco e pressões enormes sobre agricultores e populações. Sem água, não há agricultura, não há turismo sustentável, não há qualidade de vida. Não basta pedir às pessoas que poupem – é necessário investimento europeu em infraestruturas modernas, captação, armazenamento e reutilização, assim como apoio à transição para práticas agrícolas mais eficientes e resilientes.
Também a agricultura merecia maior destaque. Os produtos europeus são dos melhores do mundo em termos de qualidade e segurança alimentar, mas no terreno são os pequenos e médios agricultores que já constroem o futuro, através de circuitos curtos, mercados locais e produtos sazonais. Estes modelos são um triplo ganho: saúde, sustentabilidade e economia local. Para isso, precisamos de políticas estáveis e de maior apoio financeiro. A Europa deve ser capaz de alimentar a Europa – e isso é possível com enorme qualidade.
A habitação, por sua vez, foi reconhecida pela Presidente como um problema europeu. No interior rural, muitas casas abandonadas poderiam ser oportunidade para fixar jovens e famílias, revitalizando aldeias. Mas sem serviços básicos – saúde, educação, mobilidade, cultura – não é possível criar condições de vida dignas.
Outro desafio é o despovoamento e envelhecimento dos territórios. No interior algarvio, vemos jovens que partem porque não encontram emprego, habitação acessível nem conectividade digital. Sem jovens, não há futuro para a coesão europeia. As políticas de habitação, emprego e participação juvenil devem ser integradas e com taxas de apoio que permitam viabilizar a permanência ou o regresso a territórios rurais. Não se trata de obrigar jovens a ficar apenas na agricultura ou na floresta – com condições adequadas, podem inovar e empreender a partir do mundo rural para o mundo inteiro.
Finalmente, partilho três ideias-chave. O programa LEADER é uma das maiores provas do valor acrescentado europeu e deve ser reforçado, não enfraquecido. O desenvolvimento local só gera impacto real se for apoiado com tempo e taxas adequadas de financiamento. E, para além da energia, da defesa ou da inteligência artificial, também a água, a agricultura sustentável, a habitação acessível, as competências e a juventude são estratégicos para o futuro da Europa.
Se queremos uma União Europeia mais forte e resiliente, precisamos de territórios vivos, comunidades envolvidas e cidadãos que sintam a Europa como parte da sua vida.
Nota biográfica: Arlete Abreu Rodrigues é natural de Coimbra, onde cresceu e se licenciou em Ecoturismo pela Escola Superior Agrária de Coimbra. Iniciou a sua carreira profissional no Algarve, em empresas de animação turística sediadas em Faro, Olhão e Tavira, e mais tarde em Lisboa, onde assumiu responsabilidades na organização e desenvolvimento de atividades de ecoturismo. Em 2014 integrou a Associação In Loco, através do projeto Puro Algarve, que marcou o início de um percurso ligado à valorização da Dieta Mediterrânica e à promoção de sistemas alimentares sustentáveis. Desde então, colaborou em projetos como SlowMed, MedFest, Rota da Dieta Mediterrânica e O Prato Certo, e atualmente desenvolve trabalho em iniciativas inovadoras que estruturam circuitos curtos de comercialização, promovem o consumo local e reforçam a cooperação transfronteiriça. Destacam-se os projetos Revitalgarve, AgroVila, RAIA – Rede de Apoio à Inovação Rural Andaluzia-Alentejo-Algarve, a RNAES – Rede Nacional para a Alimentação Equilibrada e Sustentável, e o COREnet – Cadeias Curtas de Abastecimento Alimentar. Neste percurso, tem contribuído para a criação de redes de produtores, a promoção de hábitos alimentares saudáveis e sustentáveis, o fortalecimento da cooperação institucional e a inovação em sistemas alimentares territoriais. Atualmente integra a Direção da Associação In Loco e exerce funções como Presidente do Órgão de Gestão do GAL “Interior do Algarve Central”.
O SOTEU constitui um dos momentos mais relevantes da vida política e institucional europeia, sendo uma oportunidade para avaliar o trabalho desenvolvido e lançar os desafios futuros da União, promovendo simultaneamente a comunicação com os cidadãos.
Mais informações em: https://portugal.representation.ec.europa.eu/events/presidente-da-comissao-profere-discurso-sobre-o-estado-da-uniao-europeia-soteu-2025-09-10_pt
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