A União Europeia (UE) quer liderar o mundo na transição energética. Quer ser verde, limpa e autossuficiente. Quer libertar-se dos combustíveis fósseis e tornar-se um exemplo planetário de sustentabilidade. A ambição é nobre – mas há um pequeno (grande) problema: a UE não tem recursos naturais em abundância. É um continente envelhecido, densamente povoado (com direitos assumidamente adquiridos) e pobre em matérias-primas críticas.
A retórica política é sedutora: “energia limpa”, “neutralidade carbónica” e “autonomia estratégica”. Mas por detrás dos discursos otimistas – de alguns que não escolhemos para nos representar – esconde-se uma realidade desconfortável: a transição energética europeia depende de uma lista de elementos que não nascem nas florestas alpinas, nem nas planícies do Danúbio! O lítio, o cobalto, o níquel, o cobre, o grafite e as terras raras são os novos pilares do progresso. São eles que alimentam as baterias, os painéis solares, as turbinas eólicas, os semicondutores e toda a maquinaria do mundo “verde”. Acontece que, ironicamente, a UE importa mais de 90% de tudo isso. Está presa a cadeias de fornecimento dominadas pela China, República Democrática do Congo, Chile, Indonésia e Austrália. A China controla a maior parte da produção mundial das terras e processamento de minerais essenciais. Recorda-se do gás russo – útil durante décadas e que, sob outros nomes, continua a circular e a ser útil? Mas, hoje, a nova dependência é mais profunda e estrutural. A UE finge autonomia enquanto assina contratos de dependência disfarçada. Quer ser soberana, mas continua refém…

Docente, com pós-Graduação em Gestão e Administração Escolar
A UE sonha com independência energética, mas talvez precise primeiro de independência de pensamento. Não basta substituir petróleo por lítio, gás por hidrogénio ou carvão por vento. É preciso repensar o próprio conceito de progresso
Para enfrentar esta fragilidade, Bruxelas lançou a Lei das Matérias-Primas Críticas (CRMA). O plano passa por, até 2030, extrair internamente pelo menos 10% das matérias essenciais, processar 40% e obter 15% a partir da reciclagem. É um esforço notável, mas insuficiente. A mineração na UE continua a ser tema sensível: ninguém quer uma mina no “quintal”, nem o impacto ambiental que ela acarreta. “O mesmo cidadão” que protesta contra o petróleo ou o gás russo, protesta também contra a extração de lítio. Resultado: a transição energética precisa de recursos que a própria UE tem dificuldade em extrair. Quer energia limpa, mas sem sujar as mãos…
A UE tenta competir com outros países, mas sem a mesma capacidade orçamental – e com uma burocracia que asfixia mais do que incentiva. Enquanto discute regras, os outros produzem. E ainda há o outro lado: o custo social e energético da própria transição. A eletrificação em larga escala exige uma produção colossal de energia. As infraestruturas atuais não suportam o peso das ambições. E, se a energia for cara ou instável, a competitividade industrial europeia evapora-se. A UE corre o risco de ser verde, mas pobre…
A questão é, hoje, mais profunda do que técnica: é civilizacional. O modelo económico europeu foi construído sobre a ideia de crescimento contínuo, consumo elevado e conforto material. Ora, a transição energética, para ser verdadeiramente sustentável, exigiria o contrário – consumir menos, produzir de forma mais racional e repensar o estilo de vida. Mas quem tem coragem política para dizer isso aos cidadãos habituados ao conforto elétrico, às viagens baratas, à abundância digital, …?
A UE sonha com independência energética, mas talvez precise primeiro de independência de pensamento. Não basta substituir petróleo por lítio, gás por hidrogénio ou carvão por vento. É preciso repensar o próprio conceito de progresso. Uma transição que apenas troca um tipo de dependência por outro não é transição – é ilusão. Será que os jovens de hoje (adultos de amanhã), estarão disponíveis para aceitar esta ilusão?
O mundo não precisa de mais discursos, precisa de coerência. E coerência, neste caso, significa reconhecer que não haverá futuro verde possível, enquanto continuarmos a fingir que o planeta é inesgotável, mesmo quando o pintamos de verde.
Talvez o verdadeiro desafio da UE não seja a falta de recursos naturais, mas a falta de coragem. E essa “mina”, infelizmente, ainda não foi descoberta…
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