A proliferação de armamento nuclear permanece como uma das mais inquietantes ameaças à segurança internacional contemporânea. Embora a doutrina da dissuasão — sustentada pela lógica da destruição mútua assegurada — continue a ser invocada como garantia de estabilidade, essa crença revela-se cada vez mais vulnerável perante a complexidade geopolítica atual, a multiplicação de arsenais e a crescente imprevisibilidade de lideranças políticas.
A dissuasão nuclear pressupõe que os Estados detentores de armas atómicas agirão sempre de forma racional, evitando o uso de tais dispositivos por receio da retaliação. No entanto, essa lógica ignora variáveis críticas: falhas técnicas, erros de interpretação, acidentes operacionais e, sobretudo, a dimensão humana — onde o juízo individual pode ser determinante.
A Crise dos Mísseis de Cuba e o Submarino B-59
Um episódio paradigmático ocorreu durante a Crise dos Mísseis de Cuba, em outubro de 1962, quando os EUA montaram um cerco naval àquela ilha e lançaram cargas de profundidade, ainda que não explosivas, para dissuadir qualquer submarino soviética dela se aproximar. O submarino soviético B-59, armado com um torpedo nuclear, encontrava-se nas águas do Caribe, isolado de comunicações externas. Ao ouvir o barulho provocado por tais cargas, a tripulação interpretou que a guerra havia começado. Dois dos três oficiais com autoridade para lançar o torpedo votaram a favor. Apenas a prudência de Vasili Arkhipov, que se opôs por não ter confirmação de um ataque real, impediu o que poderia ter sido o início de um conflito nuclear global. Este episódio, mantido em segredo durante décadas, ilustra de forma dramática a vulnerabilidade da paz mundial perante decisões individuais em contextos de elevada tensão.
O Alerta Falso de 1983: Stanislav Petrov
Outro episódio igualmente revelador ocorreu em 1983, quando Stanislav Petrov, oficial soviético responsável pelo sistema de alerta precoce, recebeu uma indicação de que os Estados Unidos haviam lançado mísseis nucleares contra a União Soviética. O protocolo exigia que o ataque fosse reportado como real, o que poderia desencadear uma retaliação imediata. Petrov, no entanto, decidiu que o alerta era provavelmente um erro técnico, pois o número de mísseis parecia pequeno demais para um ataque em larga escala. A sua decisão de não reportar o ataque como legítimo evitou uma possível escalada nuclear. Mais tarde, descobriu-se que o sistema havia interpretado reflexos solares nas nuvens como lançamentos de mísseis — uma falha de software e de interpretação de dados dos satélites recém-implantados.
O Desmantelamento dos Tratados de Controlo Nuclear
A fragilidade da dissuasão nuclear não se limita à sua lógica interna ou aos riscos humanos e tecnológicos. Ela é agravada pela erosão dos mecanismos multilaterais de controlo de armamentos, que durante décadas funcionaram como travões à escalada armamentista.

Jurista
Os episódios protagonizados por Vasili Arkhipov e Stanislav Petrov não devem ser apenas recordados como curiosidades históricas, mas como advertências permanentes
Em 2019, os Estados Unidos retiraram-se do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF), assinado com a União Soviética em 1987. Este tratado proibia o desenvolvimento e o posicionamento de mísseis balísticos e de cruzeiro com alcance entre 500 e 5.500 km, e foi responsável pela eliminação de milhares de ogivas nucleares na Europa. A sua dissolução abriu caminho para o desenvolvimento de novos sistemas de armamento, sem qualquer limitação legal, reintroduzindo o risco de confrontos nucleares em teatros regionais.
Mais preocupante ainda é o futuro incerto do New START, o último tratado bilateral em vigor entre os Estados Unidos e a Rússia, que limita o número de ogivas nucleares estratégicas e prevê inspeções mútuas. Prorrogado até fevereiro de 2026, o tratado enfrenta um impasse diplomático, agravado pela deterioração das relações entre as duas potências. A sua não renovação poderá deixar o mundo sem qualquer instrumento vinculativo que limite os arsenais nucleares das maiores potências, num contexto de crescente desconfiança e competição estratégica.
A extinção destes tratados não representa apenas um retrocesso jurídico. Representa a normalização da ausência de regras, a legitimação da corrida armamentista e a multiplicação de riscos sistémicos. Sem mecanismos de verificação, sem compromissos formais e sem canais de diálogo estruturado, a dissuasão torna-se ainda mais instável — e a paz, ainda mais dependente do acaso.
A Psicologia do Poder e o Risco da Decisão Solitária
A concentração do poder de decisão sobre o uso de armas nucleares em poucos indivíduos é, por si só, um fator de risco. A história mostra que nem sempre os líderes agem com ponderação, e que a pressão política, o orgulho nacional ou mesmo traços de personalidade podem influenciar decisões com consequências irreversíveis. A ideia de que todos os líderes são racionais e estáveis é uma suposição perigosa. A existência de “botões vermelhos” acessíveis a um número restrito de pessoas coloca a humanidade numa posição de vulnerabilidade extrema.
A Ilusão da Segurança e a Urgência da Sensibilidade
A crença na dissuasão como escudo último ignora a realidade de que sistemas tecnológicos falham, que interpretações humanas são falíveis e que contextos políticos podem degenerar rapidamente. A paz não é um estado natural, mas uma construção política e normativa que exige vigilância, responsabilidade e memória histórica.
É urgente que a comunidade internacional recupere a sensibilidade para esta matéria. Que se reforce o direito internacional, que se retomem os tratados de desarmamento, que se reconheça que a segurança verdadeira não se constrói com ameaças, mas com confiança, diálogo e normas comuns. A paz mundial não pode depender da sorte, da prudência ocasional ou da falibilidade humana. Precisa de estruturas robustas, de compromissos vinculativos e de uma cultura política que valorize a vida acima da hegemonia.
Conclusão
Os episódios protagonizados por Vasili Arkhipov e Stanislav Petrov não devem ser apenas recordados como curiosidades históricas, mas como advertências permanentes. A sobrevivência coletiva já dependeu da lucidez de indivíduos isolados — e isso é, por definição, um risco intolerável. A dissuasão nuclear é uma promessa frágil, sustentada por um equilíbrio instável. Quanto mais armas existirem, maior o risco de erro, acidente ou loucura — e menor a margem para sobrevivência coletiva.
A paz não é um dado adquirido. É uma escolha — e uma responsabilidade coletiva.
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