Dizem que o digital é uma floresta indomada. Um território onde crescem, lado a lado, árvores venenosas e plantas medicinais, sombras densas e clareiras inesperadas. Há quem entre nela com medo, há quem a percorra com fascínio e há quem prefira ficar à porta, agarrado ao velho mapa da cidade que já não corresponde ao terreno.
A imprensa tradicional, essa, parece ter escolhido o conforto das avenidas conhecidas. Circula sempre pelos mesmos quarteirões, cumprimenta as mesmas figuras, repete as mesmas histórias com pequenas variações de pontuação. É uma cidade antiga, com fachadas restauradas mas interiores previsíveis. A diversidade existe, claro — como existe num bairro onde todas as casas têm cores diferentes mas a mesma planta.
O digital, pelo contrário, é um lugar onde a pluralidade não se anuncia: acontece. Acontece no excesso, no ruído, na contradição. Acontece quando propaganda e investigação séria se cruzam no mesmo trilho, obrigando-nos a distinguir, a comparar, a desconfiar, a verificar. É um espaço onde a autoridade não se impõe — disputa-se. Onde a verdade não chega pronta — procura-se.

Jurista
E, como em todas as épocas de transição, haverá quem se adapte e quem se transforme em ruína elegante – visitada, fotografada, citada, mas já sem voz no presente
E talvez seja isso que incomoda: a ideia de que a esfera pública deixou de ser um salão com cadeiras marcadas e passou a ser uma praça onde todos falam ao mesmo tempo. Uma praça onde o eco já não pertence aos mesmos de sempre, onde a reputação não se herda, onde o contraditório não pode ser varrido para debaixo do tapete editorial.
Os jornais tradicionais olham para esta praça com um misto de nostalgia e receio. Sabem que o mundo mudou, mas hesitam em mudar com ele. Continuam a confundir estabilidade com autoridade e autoridade com repetição. Continuam a acreditar que a pluralidade é um alinhamento de colunistas, quando a pluralidade verdadeira é um risco: o risco de ouvir o que não se espera, de publicar o que não convém, de admitir que o mundo é maior do que o seu diagrama interno.
Mas a escolha é inevitável. Ou se abrem à floresta — com tudo o que ela tem de imprevisível, de vivo, de contraditório — ou permanecem na cidade antiga, cada vez mais silenciosa, cada vez mais museológica.
O digital não lhes roubou leitores.
Roubou-lhes o privilégio de definir o que conta como pluralidade.
E, como em todas as épocas de transição, haverá quem se adapte e quem se transforme em ruína elegante — visitada, fotografada, citada, mas já sem voz no presente.
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