O dado mais perturbador destas eleições presidenciais não está nos discursos de vitória ou derrota, nem nas análises apressadas sobre estratégias de campanha, erros cometidos ou méritos reconhecidos. Está num número que, apesar de esmagador, permanece quase invisível no debate público: a soma dos abstencionistas e dos votos em branco ultrapassou o total de votos obtidos pelos dois candidatos que chegaram à segunda volta.
Este facto, por si só, deveria ser suficiente para desencadear uma reflexão séria sobre o estado da nossa democracia. Mas não. O país político prefere ignorá-lo, como se fosse um detalhe irrelevante, um ruído estatístico sem consequências. Fala-se de tudo — do vencedor, do vencido, das alianças, das expectativas, das leituras partidárias — menos daquilo que deveria preocupar-nos a todos: por que razão tantos cidadãos optaram por não escolher nenhum dos candidatos disponíveis?
A abstenção não é apenas um número. É um sintoma. E quando o sintoma cresce eleição após eleição, sem que ninguém se disponha a diagnosticá-lo, o problema deixa de ser dos abstencionistas e passa a ser do sistema político que insiste em não se olhar ao espelho.

Jurista
Quando metade do país se abstém ou vota em branco, não é apenas um alerta: é um pedido de atenção
É curioso — ou talvez revelador — que os mesmos comentadores que dissecam ao milímetro cada gesto dos candidatos, cada frase dos debates, cada flutuação das sondagens, não dediquem uma única palavra às razões que levam centenas de milhares de pessoas a afastarem-se do processo eleitoral. Como se a democracia fosse apenas a soma dos votos expressos, e não também o peso dos que se recusam a participar.
Ignorar este fenómeno é confortável. Obriga a menos trabalho, menos autocrítica, menos responsabilidade. Mas é também uma forma de normalizar o afastamento dos cidadãos, como se fosse natural que uma parte crescente do país se sinta desligada da vida política.
Há ainda outro fenómeno que merece reflexão: a súbita transformação de algumas figuras públicas, que até há pouco tempo mantinham distância — quando não desdém — em relação ao candidato vencedor, e que agora surgem apressadas a abraçá-lo, a elogiá-lo, a reivindicar proximidade e afinidade política.
Esta coreografia pós-eleitoral, tão antiga quanto previsível, contribui para a perceção de artificialidade que tantos eleitores apontam como razão para o seu afastamento. Quando as convicções parecem maleáveis ao sabor do resultado, quando o oportunismo se sobrepõe à coerência, quando a vitória atrai apoios tão rápidos quanto suspeitos, não admira que muitos cidadãos sintam que o jogo político não é feito para eles — mas sobre eles.
A democracia não se esgota no ato eleitoral. Vive da confiança, da participação, da sensação de que a escolha importa e de que o sistema responde às preocupações reais das pessoas. Quando metade do país se abstém ou vota em branco, não é apenas um alerta: é um pedido de atenção.
Talvez esteja na altura de ouvir.
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