A expressão veio diretamente dos especialistas: serão “três dias de frio puro”, como descreve Roberto Granda, meteorologista do portal espanhol ElTiempo.es citado pelo Xataka, site espanhol especializado em ciência, para caracterizar o episódio de temperaturas muito baixas que está a instalar-se na Península Ibérica. Espanha sentirá o impacto com maior intensidade, mas Portugal também poderá registar descidas acentuadas, num cenário que abre caminho a outra preocupação entre os meteorologistas: se se confirmar o padrão previsto para o início de dezembro, muitas zonas poderão ter menos chuva do que o habitual.
De acordo com o Xataka, o frio “já se fez notar nas mínimas de terça-feira”, com descidas “de até quatro a seis graus de forma generalizada”. Esta quarta-feira foi o dia mais frio deste episódio, com “geadas generalizadas” e grande parte do interior peninsular abaixo dos 10 graus Celsius. A noite de “frio puro”, porém, será a de quinta-feira, com mínimas que deverão ficar “abaixo dos cinco graus na maior parte do território peninsular”.
Uma trégua curta antes de outra mudança
Depois deste primeiro impacto, as previsões apontam para um breve alívio. O site espanhol explica que, apesar de vários cenários possíveis, o mais provável é que no final da semana uma dorsal atmosférica se instale sobre a Península Ibérica, ainda que por pouco tempo. Pouco depois, uma nova vaga de ar frio ‘puro’ vinda do norte poderá aproximar-se, trazendo alguma precipitação. “Não terá muita chuva”, refere a publicação, mas ainda assim representa uma interrupção temporária antes de um período tendencialmente mais estável.
A mudança mais relevante, porém, surge a partir dos modelos de médio prazo. O Xataka adianta que o modelo europeu alterou a previsão e aponta agora para uma NAO positiva durante a primeira semana de dezembro.
O que significa uma NAO positiva?
A Oscilação do Atlântico Norte mede o equilíbrio entre o anticiclone dos Açores e a depressão da Islândia. Quando o índice é negativo, o anticiclone enfraquece e as borrascas atlânticas seguem rotas mais a sul, atingindo Portugal e Espanha com maior facilidade.
Mas se o padrão passar para positivo, como sugerem os modelos, “não entrará uma gota de humidade vinda do oeste”, traduz a publicação. As borrascas, ventania súbita acompanhada de aguaceiro, desviam-se para norte e deixam a Península sob massas de ar mais secas, com menos frentes atlânticas a cruzar o território. Dezembro pode, portanto, começar com menos chuva em várias regiões, algo particularmente sensível num contexto em que parte da Península ainda apresenta problemas de défice hídrico.
Mais calor na primeira semana de dezembro
Apesar da possível escassez de chuva, o período pode trazer temperaturas ligeiramente acima da média. O meteorologista Samuel Biener, da Meteored (tempo.com), citado pelo Xataka, explica que “com um fluxo predominante de oeste ou sudoeste, as temperaturas poderão situar-se entre um e três graus acima da média no centro, no norte e junto ao Mediterrâneo” durante a primeira semana de dezembro. O comportamento atmosférico pode refletir-se igualmente em Portugal Continental, ainda que com algumas diferenças regionais.
E o que esperar em Portugal?
No caso português, as previsões apontam para um comportamento semelhante, embora menos intenso do que no interior de Espanha. As regiões do Norte e do Interior Centro deverão sentir as descidas mais acentuadas, com possibilidade de geadas matinais e mínimas próximas de zero em vales e zonas mais abrigadas de maior altitude. No litoral, espera-se um arrefecimento mais moderado, com valores dentro ou ligeiramente abaixo do normal para esta altura do ano, mas suficientes para reforçar a sensação de tempo invernal, sobretudo nas madrugadas.
Quanto à chuva, os modelos de médio prazo sugerem alguns dias mais secos no final de novembro em grande parte do país, com predomínio de tempo estável. No entanto, as últimas projeções do modelo europeu, analisadas por meteorologistas portugueses, admitem a aproximação de novas frentes no início de dezembro, em particular sobre o Norte e o Centro, onde não se exclui precipitação localmente acima da média nos primeiros dias do mês. O Sul mantém-se, para já, como a região mais vulnerável à falta de chuva, num contexto em que grande parte do território ainda registava seca meteorológica no final do outono.
Um início de dezembro mais seco?
O sul da Península e os arquipélagos apresentam, por agora, cenários mais variados. No caso das Canárias, alguns modelos apontam para o reforço dos ventos alísios, o que pode até favorecer mais episódios de chuva nas vertentes expostas. Já nos Açores e na Madeira, a influência do anticiclone deverá garantir, em geral, um tempo mais estável, com apenas alguma precipitação pontual. Ainda assim, se a NAO positiva se mantiver, o traço comum será o desvio das borrascas para norte e uma atmosfera tendencialmente menos húmida sobre grande parte da Península, intercalada com a passagem ocasional de frentes e cavados mais ativos.
Para já, o que está garantido é a vaga de frio. Serão, como descreve Roberto Granda, “três dias de frio puro”, com geadas e mínimas muito baixas em grande parte da Península Ibérica. O receio dos especialistas, contudo, vai além deste episódio imediato: se o regime de NAO positiva se confirmar, o arranque de dezembro poderá ser menos chuvoso do que o habitual em muitas zonas, mesmo que os modelos ainda admitam episódios de chuva mais intensa no Norte e no Centro.
Leia também: Frio intenso está quase a chegar: conheça as regiões que vão ‘gelar’ até domingo
















