Trocar a segurança de terra firme por madrugadas no mar não foi uma decisão imediata para Tânia Graça. Depois de ter trabalhado num colégio e de ter ficado em casa durante vários anos, acabou por escolher uma profissão exigente que já fazia parte da vida da família.
Tânia tem 48 anos e é pescadora na Costa da Caparica. Segundo os pescadores locais ouvidos numa reportagem da agência Lusa, citada pela Executive Digest, é atualmente a única mulher pescadora de mar aberto em atividade naquela comunidade.
A entrada na pesca aconteceu depois de o filho completar 10 anos. Antes disso, Tânia trabalhava num colégio, mas uma gravidez de risco levou-a a ficar em casa. Quando decidiu que queria acompanhar o marido no mar, a ideia não foi imediatamente bem recebida.
Decisão provocou “uma grande discussão” com o marido
António Graça, conhecido por Toni, já era pescador e inicialmente opôs-se à decisão da mulher. O assunto chegou mesmo a provocar, segundo a reportagem, “uma grande discussão” entre o casal.
A resistência acabou por ficar para trás. Há nove anos que os dois trabalham lado a lado e saem de casa diariamente entre as quatro e as seis da manhã para lançar as redes ao largo da Costa da Caparica, passando também pelo Bugio e chegando a Cascais.
A dureza da profissão não desapareceu com a experiência. Tânia admite que durante o inverno há momentos em que sente medo do mar, mas isso não a impede de continuar a sair para trabalhar.
O próprio marido reconhece a capacidade da pescadora para enfrentar as condições que encontram no mar. Toni, que pesca desde os seis anos, admite não saber como a mulher consegue aguentar e recorda já ter visto homens assustarem-se perante a dureza da atividade.
Tânia só lamenta não ter começado mais cedo
Apesar das dificuldades, Tânia não trocaria a liberdade que encontra no mar por outro trabalho. Há, contudo, uma coisa que mudaria no seu percurso: teria começado muito mais cedo.
“Já tenho 48 anos, se tivesse agora 20 anos, ninguém nos parava, eu e ele”, afirmou Tânia, entre risos, à agência Lusa.
O casal pesca diferentes espécies consoante a altura do ano, entre as quais robalo, linguado, choco, dourada, sargo e corvina. A ausência de um porto de abrigo na Costa da Caparica leva-os, porém, a manter a embarcação na Docapesca, em Lisboa.
Todos os dias de pesca implicam, por isso, atravessar primeiro a Ponte 25 de Abril de carro. A opção surgiu depois de o casal ter perdido uma embarcação na Cova do Vapor devido à falta de condições no local.
Este ano encontraram menos peixe
Os últimos meses trouxeram outro problema. As tempestades do inverno impediram os pescadores da Caparica de sair para o mar durante cerca de dois meses e, quando Tânia e Toni regressaram, encontraram diferenças.
Tânia conta que havia menos peixe e que algumas espécies estavam a aparecer mais tarde. O marido vai ainda mais longe: em 47 anos ligados à pesca, afirma não se lembrar de um ano semelhante e diz que, entre janeiro e fevereiro, conseguiu pescar apenas três dias.
O casal tem também observado mudanças na altura em que determinadas espécies chegam à costa. Toni dá como exemplos a corvina e o robalo, que diz estarem a aparecer mais tarde do que anteriormente, e associa estas alterações às condições do mar e da temperatura da água.
Nove anos depois de Tânia ter decidido acompanhar o marido, a discussão inicial deu lugar a uma parceria diária no mar. Aos 48 anos, a pescadora apenas gostaria de ter tomado a decisão quando tinha 20.
















