O portuense Pedro Lopes Adão iniciou o seu percurso literário ainda adolescente e construiu, num espaço de poucos anos, uma obra que atravessa a poesia, a crítica literária e o ensaio, sempre ancorada em experiências pessoais e num diálogo constante com outros autores. Começou a escrever aos 15 anos, numa fase em que a publicação não fazia parte dos seus horizontes imediatos, mas em que a escrita já surgia como necessidade.
Em entrevista ao POSTAL, o jovem de apenas 24 anos explica que o primeiro contacto com a poesia ocorreu durante o ensino secundário, no 10.º ano, quando leu o livro “Só”, de António Nobre. O livro, descrito pelo próprio autor como “o mais triste alguma vez escrito em Portugal”, funcionou como um ponto de inflexão, levando Pedro Lopes Adão a experimentar a escrita poética de forma regular e intuitiva.
Início sem planos editoriais
A escrita começou sem qualquer ambição pública ou literária definida. “Tinha um caderno preto e fui escrevendo vários poemas”, recorda, explicando que, nessa fase, os textos surgiam como exercício pessoal, desligado de expectativas de validação externa ou de circulação editorial.
O percurso escolar não confirmou de imediato essa inclinação. No início do secundário, uma professora de Português disse-lhe: “Você não escreve bem”, avaliação que contrastaria com o desfecho do ciclo de estudos, terminado com média de 18 valores à disciplina, evidenciando uma evolução progressiva da escrita.
Aos 18 anos, Pedro Lopes Adão ingressou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no curso de Línguas, Literaturas e Culturas, num período particularmente instável, marcado pelo início da pandemia.
“Na altura da pandemia toda a gente tinha medo de morrer”, afirmou ao POSTAL, descrevendo um contexto de forte desorganização académica. “Eu acabei por fazer jornadas diárias de 16 horas à frente do computador”, acrescenta, sublinhando o impacto desse período na sua rotina e na relação com o estudo.

Morte como ponto de viragem
A doença prolongada e a morte do avô, diagnosticado com Alzheimer, tiveram um peso determinante na sua trajetória literária. “O meu avô foi um homem que nunca teve escolaridade”, recorda, salientando o orgulho que sentia pelo percurso académico dos filhos e do neto.
A perda marcou uma rutura temática na sua obra. “A sua morte levou-me para aquilo que eu considero mais a segunda parte da minha obra”, explica, apontando para um conjunto de interrogações sobre Deus, justiça e finitude que passaram a atravessar a sua escrita.
Uma “torrente criativa“
Esse período coincidiu com uma fase de produção intensa, durante a qual escreveu oito livros em três anos (entre 2022 e 2025). “Ars Longa, Vita, Brevis”, “Jogo de Espelhos” e “Pequena Dolência” são algumas das obras que fazem parte do seu currículo. “A minha dor e a doença, a morte, uma certa crise fez com que eu tivesse numa torrente criativa”, afirma, reconhecendo também o papel das oportunidades que lhe foram surgindo.
O seu primeiro livro, intitulado “Palavra em Queda” (publicado em 2022), foi escrito em 48 horas, enquanto o segundo, “Os Amorosos & Os Odiados” (publicado em 2023), nasceu integralmente numa esplanada. “Todos os meus livros são uma resposta a outros livros”, explica, assumindo a escrita como um diálogo permanente com leituras anteriores. No caso específico da primeira obra, o jovem destaca que surgiu na sequência da leitura de um livro de Eugénio de Andrade, que o levou a “escrever à margem do livro um poema quase resposta ao do conhecido autor português”. “Quando dei por mim, estavam escritos 30 poemas”, sublinha.

Impasse com a poesia
Atualmente, Pedro Lopes Adão atravessa um período de maior contenção criativa, motivado pelas exigências do mestrado e pela produção académica. “Comecei a sentir que não estava a sair a sair nada que me deixasse confortável relativamente à bitola que eu coloquei aos livros anteriores e entregar menos ao leitor parece-me errado”, afirma, justificando a pausa na poesia com a necessidade de manter um padrão de exigência elevado.
No entanto, o autor faz questão de clarificar ao POSTAL que se mantém ligado à escrita através de antologias de ensaio e continua a encarar cada projeto como ponto de partida para o seguinte. “Quando acaba um projeto penso logo no próximo”, diz, sublinhando que, apesar das pausas, a escrita permanece como eixo central do seu percurso.
















