Uma paciente que pagou cerca de 90 euros por uma consulta de urologia numa unidade do grupo Trofa Saúde recebeu, no final, um documento alegadamente gerado por Inteligência Artificial, caso que motivou críticas da Ordem dos Médicos. De acordo com o Correio da Manhã, o bastonário considera que a utilização deste tipo de conteúdos sem validação clínica é “profundamente inábil”.
O caso remonta a 2 de junho e, segundo o jornal, ocorreu durante uma consulta de urologia. Em vez de receber um plano nutricional adaptado ao seu problema renal, a paciente terá recebido uma folha impressa com recomendações provenientes do Gemini, a ferramenta de Inteligência Artificial da Google, identificada no topo do documento como “vista geral de IA”.
“Nunca experienciei uma coisa assim. Eu preferia que ele demorasse o seu tempo”, afirmou a paciente ao jornal. A mesma pessoa classificou a situação como “uma falta de consideração”, acrescentando que esperava receber aconselhamento elaborado pelo médico e não um documento aparentemente retirado de um sistema de Inteligência Artificial.
O que terá sido entregue à paciente
Ainda de acordo com a publicação, o documento apresentava no cabeçalho a referência “vista geral de IA”, identificação habitualmente associada às respostas produzidas pelo Gemini. A paciente relatou ainda que o médico esteve a escrever no computador durante a consulta e, no final, limitou-se a imprimir e entregar a folha.
“O médico estava a escrever no computador e eu não estava à espera de receber um print do Google”, contou ao Correio da Manhã, referindo que o profissional não explicou se a informação tinha sido analisada ou adaptada ao seu caso clínico.
Ordem dos Médicos lembra responsabilidades
Contactada pelo jornal, a Ordem dos Médicos esclareceu que a utilização de Inteligência Artificial pode constituir uma ferramenta de apoio, mas nunca substitui a responsabilidade clínica do médico.
O bastonário, Carlos Cortes, foi claro ao afirmar que “a inteligência artificial é um apoio, não um substituto”. Acrescentou ainda que “toda a informação obtida via IA tem de ser obrigatoriamente validada pelo médico antes de chegar ao paciente”, sublinhando que a responsabilidade sobre o ato médico é “total e intransmissível”.
Quando a IA deixa de ser apenas uma ajuda
A Ordem distingue, contudo, diferentes níveis de utilização destas ferramentas. Refere a mesma fonte que recorrer a um chatbot para gerar informação básica, sem validação clínica, constitui uma atuação inadequada do ponto de vista profissional.
Carlos Cortes considera que utilizar um sistema como o Gemini para produzir recomendações simples de urologia revela uma prática “profundamente inábil”, por entender que esse conhecimento deve fazer parte da competência técnica do próprio médico. Já se a Inteligência Artificial for utilizada para fundamentar diagnósticos ou decisões terapêuticas sem supervisão rigorosa, a situação poderá justificar uma averiguação disciplinar.
Hospital não respondeu às questões
O Correio da Manhã refere ainda que tentou obter esclarecimentos junto do grupo Trofa Saúde sobre a utilização de Inteligência Artificial durante as consultas, os mecanismos internos de supervisão e a identidade do profissional envolvido.
Apesar dos contactos efetuados ao longo de várias semanas, o grupo não respondeu às questões colocadas, não tendo prestado qualquer comentário sobre o caso.
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