O Algarve é, ano após ano, apresentado como um exemplo de sucesso económico. Batem-se recordes no turismo, aumentam as receitas, inauguram-se novos empreendimentos e multiplicam-se os elogios ao desempenho da região. Mas há uma pergunta que continua sem resposta: quem faz funcionar o Algarve consegue, hoje, viver no Algarve?
A resposta é cada vez mais evidente. Não.
Os trabalhadores do comércio, da hotelaria, da restauração, da saúde, da educação, dos transportes e de tantos outros serviços essenciais enfrentam uma realidade insustentável. Trabalham, descontam, contribuem para a riqueza da região, mas não conseguem suportar o custo de uma habitação. Muitos vivem em quartos sobrelotados, outros percorrem dezenas de quilómetros diariamente porque foram empurrados para concelhos do interior, e muitos acabam simplesmente por abandonar o Algarve.
Esta não é apenas uma crise habitacional. É o resultado de anos de ausência de visão política.
Enquanto o mercado imobiliário se orientou quase exclusivamente para o investimento especulativo, para o alojamento turístico e para a habitação destinada a quem dispõe de maior poder de compra, os sucessivos governos foram incapazes de proteger quem trabalha e reside permanentemente na região.
As consequências estão à vista. As empresas têm dificuldade em recrutar trabalhadores, os serviços públicos enfrentam falta de profissionais e a economia regional começa a sentir os efeitos de um problema que deixou de ser apenas social para passar a ser estrutural.
Perante esta realidade, não basta importar mão de obra para preencher vagas de emprego. Portugal sempre foi um país de acolhimento e os trabalhadores estrangeiros são parte importante da nossa economia e da nossa sociedade. O verdadeiro problema é outro: aceitar um modelo económico que depende de salários baixos, precariedade e da incapacidade de oferecer condições de vida dignas a quem trabalha. Esse modelo prejudica trabalhadores portugueses e estrangeiros e compromete o futuro do Algarve.
O REAGIR defende uma mudança de paradigma.
A habitação deve deixar de ser tratada como um problema secundário e passar a constituir uma prioridade estratégica para o desenvolvimento regional. É indispensável criar uma política pública de atratividade para a população residente, aumentar significativamente a oferta de habitação acessível, promover novos núcleos habitacionais nas zonas de maior pressão demográfica, recuperar património devoluto e incentivar a fixação de trabalhadores e jovens famílias.
O Algarve não pode continuar a ser uma região extraordinária para visitar, mas impossível para viver. O desenvolvimento económico só será verdadeiramente sustentável quando quem cria riqueza puder construir o seu projeto de vida na terra onde trabalha.
Uma região que expulsa os seus trabalhadores está a hipotecar o seu futuro. Ainda vamos a tempo de inverter este caminho, mas isso exige coragem política, visão estratégica e a capacidade de colocar as pessoas acima da especulação.
O REAGIR continuará a defender um Algarve onde o crescimento económico caminhe lado a lado com a justiça social, porque uma região só é verdadeiramente próspera quando também o são aqueles que a constroem todos os dias.
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