Ricardo Gonçalves, licenciado em Educação Física, reparte os dias por dois empregos e chega a trabalhar 13 horas diárias. Dá aulas num ginásio e cumpre turnos como vigilante, numa rotina que adotou para obter a estabilidade necessária para comprar um carro e um imóvel.
A acumulação de trabalho não nasceu de uma escolha ligada à carreira académica. A falta de oportunidades no ensino e a incerteza associada aos recibos verdes levaram-no a procurar um vínculo laboral que lhe desse rendimentos regulares e maior margem para fazer planos a longo prazo.
Contrato que alterou o percurso
Numa entrevista à RTP, Ricardo refere que trabalhava apenas como instrutor de ginásio, durante cerca de cinco horas por dia. Contudo, a natureza independente dessa atividade tornou-se um obstáculo quando quis comprar um automóvel e colocar o bem em seu nome.
“Tentei comprar um carro”, recorda. Perante as dúvidas levantadas sobre a sua capacidade enquanto cliente, decidiu procurar outra ocupação. Encontrou-a na vigilância, setor onde passou a desenvolver a principal atividade profissional e onde obteve um contrato de trabalho.
Uma manhã no ginásio, outra jornada na vigilância
Os dois empregos encaixam-se num calendário que muda de acordo com os turnos. Num dos exemplos dados por Ricardo, entra na empresa de vigilância às 15:30 h e sai às 23:30 h. Antes disso, trabalha no ginásio entre as 9:30 h e as 13 h, seguindo depois para casa para almoçar antes de iniciar a segunda jornada.
No entanto, Ricardo esclarece que os dias nem sempre são como os descritos. Os turnos rotativos obrigam-no a reajustar a rotina e deixam pouco espaço para compromissos que não estejam ligados ao trabalho. A soma das horas ocupadas é acompanhada por deslocações, refeições e pela necessidade de recuperar para o dia seguinte.
Carro e imóvel entram nas contas
O contrato de vigilante trouxe-lhe previsibilidade nos pagamentos e a possibilidade de apresentar rendimentos estáveis. Ricardo diz que essa mudança lhe abriu caminho para ter bens em seu nome e reduzir a dependência de outras pessoas, objetivo que não sentia assegurado quando vivia apenas dos recibos verdes.
“Deu-me uma estabilidade”, resume. Segundo a mesma fonte, o salário pago regularmente e as condições contratuais passaram a ser determinantes nas decisões que quer tomar, incluindo a compra de um carro e de uma casa. O trabalho no ginásio, porém, manteve-se como complemento da atividade principal.
Lazer fica para depois
A jornada de 13 horas diárias de trabalho tem efeitos diretos no tempo livre. Ricardo reconhece que quem acumula empregos precisa de disponibilidade e resistência, uma vez que os imprevistos de cada dia podem condicionar o descanso, os encontros com amigos ou outros momentos de lazer. É sobretudo nas férias que consegue descansar, viajar e usufruir do dinheiro poupado ao longo do ano.
A RTP refere que o número de pessoas com dois ou mais empregos aumentou em Portugal e atingiu, em 2025, o valor mais elevado de sempre. No caso de Ricardo, a duplicação de jornadas surgiu como resposta à precariedade sentida na área em que se formou e como forma de conquistar condições para avançar com projetos pessoais.
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