Um dos bairros mais tradicionais de Lisboa está a atravessar uma transformação profunda, marcada pela perda significativa de população e por uma alteração visível no seu quotidiano. Alfama, conhecido pela sua identidade histórica, conta hoje com menos de 1.500 residentes permanentes, muito longe dos cerca de 20.000 que ali viviam em meados do século XX.
Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, citados pelo portal Lisboa Secreta, apontam para uma quebra de cerca de 80% da população ao longo das últimas décadas, refletindo uma mudança estrutural no coração da capital.
De bairro cheio a ruas mais vazias
A redução do número de habitantes não é apenas estatística. O impacto sente-se no ambiente diário, onde o movimento constante deu lugar a uma presença mais dispersa e menos permanente. Segundo a mesma fonte, os sinais de vida comunitária foram sendo substituídos por elementos associados à rotatividade turística, alterando o ritmo e a dinâmica das ruas.
Uma das principais razões apontadas para esta transformação é o crescimento do alojamento local, que tem vindo a ocupar grande parte das habitações disponíveis. Em algumas ruas centrais, como a Rua dos Remédios ou a Rua de São Pedro, existem várias unidades turísticas por cada casa habitada de forma permanente.
Habitação cada vez menos acessível
A pressão sobre o mercado imobiliário também contribuiu para a saída de residentes. O aumento do preço por metro quadrado tornou-se difícil de acompanhar para grande parte das famílias. Acrescenta a publicação que esta realidade acabou por empurrar muitos moradores para fora do bairro, alterando o perfil demográfico da zona.
A mudança no tecido social teve consequências diretas no comércio local, que durante décadas sustentou a vida do bairro. Mercearias, talhos e peixarias foram desaparecendo gradualmente, deixando de responder às necessidades da população residente.
Novas lojas, novos hábitos
Em substituição, surgiram negócios orientados para o turismo, como lojas de recordações e serviços de transporte turístico. Esta transformação é visível em várias zonas, onde a oferta comercial se adaptou ao novo tipo de visitante. Apesar de a estrutura física do bairro se manter, a forma como é vivido mudou significativamente. Locais emblemáticos continuam a existir, mas com uma utilização diferente daquela que marcava o quotidiano de outros tempos.
Zonas conhecidas, como as Escadinhas de São Miguel, ilustram bem esta mudança, sendo hoje percorridas sobretudo por visitantes. Segundo o Lisboa Secreta, o que antes era parte da rotina dos moradores tornou-se um ponto de passagem mais ligado ao turismo. A perda de comércio de proximidade trouxe dificuldades adicionais para os habitantes que permanecem, sobretudo os mais idosos.
Pressão contínua sobre o território
A forte presença de alojamento local continua a influenciar a evolução do bairro, mantendo a tendência de transformação. Acrescenta a publicação que esta realidade tem vindo a consolidar-se ao longo dos anos, sem sinais de inversão imediata. A convivência entre residentes e atividade turística coloca desafios à gestão do espaço urbano e à preservação da identidade local.
A adaptação do bairro a novas dinâmicas nem sempre acompanha as necessidades de quem lá vive. Elementos tradicionais do dia a dia deram lugar a outros mais associados à atividade turística, como caixas de chaves instaladas nas entradas. Estes sinais refletem a crescente rotatividade de ocupação das habitações.
A evolução de Alfama evidencia uma transição de bairro residencial para destino turístico, com impacto direto na sua composição social. Esta transformação traduz-se numa perda de população permanente e numa alteração da vivência urbana.
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