O calor extremo previsto para o Mundial de 2026 está a levantar novas preocupações entre especialistas em saúde, clima e desempenho desportivo, numa altura em que a prova será disputada em pleno verão na América do Norte.
Um grupo de 20 especialistas internacionais enviou uma carta aberta à FIFA, defendendo que as atuais medidas de proteção contra o calor não são suficientes para salvaguardar os jogadores durante o Mundial de 2026, que será organizado pelos Estados Unidos, Canadá e México.
A preocupação centra-se na Temperatura de Globo de Bulbo Húmido, conhecida pela sigla WBGT, um indicador que combina temperatura do ar, humidade, radiação solar e vento para avaliar o impacto do calor no corpo humano. A especialista em meteorologia World Weather Attribution explica que este índice é especialmente relevante em eventos desportivos, por medir melhor o esforço térmico do que a temperatura do ar isoladamente.
FIFA prevê pausas em todos os jogos
A FIFA anunciou que todos os jogos do Mundial 2026 terão pausas de hidratação de três minutos a meio de cada parte, independentemente das condições meteorológicas. Segundo o organismo, o árbitro irá interromper o encontro aos 22 minutos de cada parte para permitir a reidratação dos jogadores.
Ainda assim, os especialistas consideram que esta medida pode ser insuficiente em cenários de calor intenso. A carta contesta sobretudo o facto de as regras atuais apenas apontarem para uma eventual intervenção mais forte em valores muito elevados de WBGT, quando a evidência científica sugere riscos antes desse patamar.
De acordo com a análise da World Weather Attribution, as recomendações da FIFPRO indicam que, a partir dos 26ºC de WBGT, devem existir medidas de arrefecimento, e que a partir dos 28ºC as condições já podem ser inseguras para jogar, devendo ser considerado o adiamento da partida.
A mesma análise refere que as regras atuais ligadas ao Mundial só ponderam o adiamento acima dos 32ºC de WBGT.
FIFPRO defende limites mais baixos
As orientações oficiais da FIFPRO para jogos em condições de calor recomendam pausas quando o WBGT ultrapassa os 26ºC e o atraso ou adiamento dos jogos quando o valor passa dos 28ºC. O documento defende ainda que a medição deve ser feita no local antes dos jogos e treinos, com consulta entre jogadores, treinadores, médicos e árbitros.
A FIFPRO também tem defendido que as diretrizes atuais não protegem suficientemente a saúde e o rendimento dos futebolistas. Num estudo realizado em Portugal com o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol e a Federação Portuguesa de Futebol, os jogadores foram monitorizados em jogos de 90 minutos com temperatura ambiente acima dos 32ºC e WBGT superior a 28ºC.
Nesse contexto, Vincent Gouttebarge, diretor médico da mesma companhia, afirmou que temperaturas elevadas influenciam o desempenho e podem afetar negativamente a saúde dos jogadores, podendo mesmo provocar golpe de calor em situações mais graves.
Mundial de 2026 terá zonas de risco
O Mundial será disputado entre 11 de junho e 19 de julho deste ano, período em que várias cidades anfitriãs podem registar calor intenso. Um artigo científico publicado na revista Sports Medicine refere que se espera calor extremo em 14 das 16 cidades-sede, com máximos históricos de WBGT entre 21ºC e 35ºC.
A mesma publicação salienta que nenhum Campeonato do Mundo anterior apresentou uma combinação tão ampla de desafios ambientais para os jogadores, incluindo calor extremo, altitude, poluição, alergénios sazonais e viagens longas.
A World Weather Attribution estima que 26 jogos do Mundial2026 possam decorrer com WBGT igual ou superior a 26ºC, enquanto cinco partidas poderão atingir ou ultrapassar os 28ºC, valor que a FIFPRO considera inseguro para a prática do futebol competitivo.
Especialistas pedem revisão urgente
Perante este cenário, os especialistas defendem quatro alterações principais: adiar ou suspender jogos acima dos 28ºC de WBGT, aumentar a duração das pausas de arrefecimento, disponibilizar mais meios para refrescar jogadores e equipas técnicas, e atualizar as diretrizes da FIFA com base na evidência científica mais recente.
A FIFA, por sua vez, sustenta que o calendário foi preparado tendo em conta fatores como temperaturas médias, infraestruturas de arrefecimento, transportes, segurança e descanso entre jogos. O organismo afirma ainda que as pausas de hidratação fazem parte da sua estratégia para garantir melhores condições aos jogadores durante o torneio.















