No passado dia 5 de dezembro a administração norte-americana publicou a sua Nova Estratégia Nacional de Segurança que, no essencial, confirma o discurso proferido em fevereiro pelo Vice-presidente J.D. Vance na Conferência de Segurança de Munique. Neste documento de 30 pp a administração americana afirma que a Europa padece de uma erosão civilizacional e que dentro de 20 anos estará irreconhecÃvel. Em traços gerais, o documento traduz uma aplicação da Doutrina Monroe transportada para o século XXI. Os EUA regressam ao hemisfério ocidental e americano, enquanto todas as outras relações geoestratégicas e geopolÃticas são revistas à luz dos interesses vitais norte-americanos. Esta linha de pensamento revisionista da doutrina ocidental do pós-2º guerra transfere a relação transatlântica para um plano secundário e, nessa linha, também o conjunto de implicações diretas e indiretas da guerra entre a Ucrânia e a Rússia que passa a ser, sobretudo, um problema europeu e da União Europeia. Isto dito, quero crer que a União Europeia estará obrigada a rever e clarificar, desde já, a sua estratégia no horizonte 2030. E começo com uma nota histórica.
Em 2030 completam-se 80 anos sobre a Declaração Schuman (9 de maio, Dia da Europa) que iniciou, formalmente, o projeto de construção europeia. A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) foi a primeira comunidade a dar corpo ao projeto europeu. Diz-se nessa declaração, A Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto, far-se-á por meio de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto.
De facto, as Comunidades Europeias foram sendo construÃdas ao longo do tempo. No inÃcio, a CECA, com apenas 6 paÃses fundadores, depois os insucessos da comunidade de defesa e da comunidade polÃtica, um pouco mais tarde, em 1957, a Comunidade Económica Europeia, em 1992 é criada em Maastricht a União Europeia. Passados 75 anos e depois de várias revisões dos tratados e a saÃda do Reino Unido, somos, hoje, 27 Estados membros. Aqui chegados, seguem-se algumas propostas que estão já contidas no horizonte 2030 e que podem acrescentar uma solidariedade de facto entre os europeus:
– Cumprir um núcleo de metas e métricas sobre a descarbonização até 2030,
– Conceber e construir uma IA própria que seja uma referência europeia,
– Concluir a união bancária e a união europeia do mercado de capitais,
– Aprofundar a união orçamental até ao limite de 5% do PIB europeu em 2030,
– Acelerar a formação da comunidade europeia de segurança e defesa,
– Prosseguir o alargamento à Ucrânia e a alguns paÃses dos Balcãs.
Estas propostas, algumas já em curso de realização, estão, agora, em risco devido à s novas divisões internas no projeto polÃtico de integração que esta Estratégia Nacional de Segurança dos EUA veio claramente pôr em causa através do apoio declarado aos movimentos e partidos nacionalistas. Senão, vejamos:
– A Europa deixou de ser uma prioridade geopolÃtica dos EUA enquanto, ao mesmo tempo, o quadro de atuação da ONU está praticamente paralisado, ou seja, é preciso rever em profundidade a polity, a policy e a politics europeias tão depressa quanto possÃvel;
– O quadro orçamental atual está claramente desatualizado face à s novas necessidades geopolÃticas e geoeconómicas, assim como a filosofia polÃtica das finanças públicas europeias no novo cenário e, logo, a sua estrutura de custos e benefÃcios orçamentais;
– Estamos, quase sem dar por isso, a fazer uma transição do paradigma da eficiência para o paradigma da eficácia, onde os resultados pretendidos prevalecem sobre os custos obtidos; quer dizer, ou temos uma estratégia clara e somos capazes de conciliar descarbonização, sustentabilidade e crescimento económico através de uma geopolÃtica própria de áreas de influência e cooperação internacional ou somos claramente perdedores num mundo transacional agressivo e pleno de efeitos externos e secundários e onde os novos esquemas realistas de transação e cooperação escapam ao poder europeu;
– A ordem internacional é hoje imposta pelas potências incumbentes cujos riscos põem em causa os equilÃbrios internos da Europa; qual é neste momento o campo geopolÃtico europeu e a sua área de influência? E qual é a sua autonomia estratégica neste momento? E qual é a prontidão militar de uma força europeia de intervenção rápida? E qual é a soberania europeia em matéria de investigação tecno-digital, militar e energética?
– No plano interno é, também, claro que a ligação entre descarbonização e crescimento económico cria instabilidade, que o fardo regulatório europeu é um mecanismo ideal para os lobistas dos grandes interesses privados, que os equilÃbrios internos roubam foco e concentração aos investimentos da União e que, para cúmulo de tudo isto, o diretório franco-alemão é uma grande incógnita no futuro próximo no que respeita à s futuras coligações de governo e suas opções polÃticas.
O que se disse antes reforça a nossa convicção de que até 2030 a União está obrigada a chegar a um compromisso polÃtico mÃnimo, se quisermos, a um Ato Único Europeu com vista à alteração dos tratados europeus, sem prejuÃzo de revisões excecionais de cooperação reforçada e estruturada antes dessa data. Em termos gerais, essa alteração teria lugar em três planos, na polity, na policy e na politics europeia.
Na polity europeia, propomos um Ato Único Europeu que consagre um conselho de segurança europeu, a iniciativa legislativa do PE, novas maiorias nos processos de decisão, a formação de um senado europeu e a figura do governo de missão e estruturas executivas dedicadas em áreas fundamentais da construção europeia.
Na policy europeia a nova polÃtica económica da União contemplará novas atribuições do BCE, a tributação e recursos próprios da nova autoridade orçamental, a mutualização e emissão de dÃvida conjunta, a capitalização e o capital de risco na união do mercado de capitais, uma revisão das regras da polÃtica regulatória em todas estas áreas da polÃtica pública europeia.
Na politics europeia a proposta vai para uma agenda de bens comuns europeus e para as estruturas e governos de missão respetivos em cinco áreas fundamentais: uma estrutura de missão para as redes de cidades e regiões em nome do princÃpio da coesão territorial (1), uma estrutura de missão para o pacto ecológico e a sustentabilidade (2), uma estrutura de missão para o pacto digital e a inteligência artificial em nome da criatividade europeia (3), uma estrutura de missão para a cooperação e ajuda externas (4), uma estrutura de missão para dar cobertura à s comunidades de risco e aos projetos comuns e colaborativos da União Europeia (5).
A terminar, a erosão civilizacional apregoada pela administração americana parece-nos, cada vez mais, uma erosão transatlântica. Fica, assim, definitivamente provado que os idealistas da paz perpétua e do soft power não prevalecem sobre os realistas da lei da força e da polÃtica de potência. Na guerra da Ucrânia tudo leva a crer que vamos assistir a um cessar-fogo que congela uma invasão e abre uma nova guerra fria. A Ucrânia converter-se-á, doravante, num problema permanente para a União Europeia e um fator de divisão interna de consequências imprevisÃveis. Agora, só falta mesmo saber por onde passará o novo muro de Berlim!!
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Artigo publicado no Público.
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