Donald Trump assinou esta semana uma ordem executiva que exige que os novos edifícios federais dos Estados Unidos privilegiem a arquitetura clássica e tradicional. A decisão, apresentada sob o lema “Making Federal Architecture Beautiful Again”, está a gerar um debate: uns aplaudem o regresso à beleza e à dignidade da arquitetura pública, outros acusam-no de impor gosto estético pela via política.
Trump continua a ser uma figura profundamente controversa, isto sem dúvida, mas desta vez, convém parar e refletir: estará ele, por acaso, a tocar num ponto que esquecemos? Diria que sim e Portugal devia, desta vez, aprender com Trump.
Em Portugal, a arquitetura pública tem sido vítima de uma lógica burocrática e despersonalizada. Ministérios, escolas, hospitais e tribunais foram erguidos ao longo das últimas décadas como se a única preocupação fosse o custo da obra e a rapidez da execução. O resultado é um país onde demasiados edifícios estatais se confundem com blocos anónimos de betão, sem identidade, sem alma e, sobretudo, sem respeito pela memória coletiva.
O contraste é gritante: somos a nação do manuelino, do barroco joanino e do pombalino iluminista, estilos que marcaram não só o espaço urbano, mas também o orgulho de um povo. Contudo, ao olhar para muitas das construções públicas recentes, ninguém diria que Portugal carrega consigo séculos de genialidade arquitetónica. O Estado português habituou-se a erguer edifícios funcionais, mas esteticamente feios, quase sempre desligados da envolvente histórica e da sensibilidade cultural.
Não é apenas uma questão de estética: a fealdade transmite descuido, transmite a ideia de que o cidadão não merece espaços dignos. Compare-se a sobriedade majestosa do histórico Palácio da Justiça com a funcionalidade despersonalizada do Campus de Justiça no Parque das Nações. Enquanto o primeiro inspira respeito pela instituição judicial, o segundo mais parece um centro de escritórios. Uma escola que lembra uma prisão, um hospital indistinguível de um centro comercial, todos eles falam, ainda que em silêncio, sobre o valor que o poder político atribui à comunidade.
Foi precisamente com esta lógica que Trump tomou a sua decisão. Mais do que uma questão de gosto pessoal, trata-se de uma decisão com um princípio político: os edifícios do Estado devem inspirar confiança, transmitir orgulho cívico e dialogar com a herança cultural da nação. Quando um tribunal é construído em mármore com colunas e proporções harmónicas, o cidadão sente que entra num espaço de dignidade; quando uma escola é projetada com formas equilibradas e referências à tradição, o aluno percebe que o seu país valoriza o conhecimento.
É claro que a medida gerou controvérsia: críticos acusam Trump de impor um estilo e limitar a liberdade criativa dos arquitetos. Mas talvez o debate esteja mal colocado. O verdadeiro ponto não é a limitação, mas a responsabilidade do Estado em erguer edifícios que sirvam de referência e não de vergonha. A arquitetura pública não é apenas funcional, é também política, cultural e simbólica.
O problema é que, nas últimas décadas, o Estado português esqueceu-se dessa responsabilidade. Escolheu a via mais barata e desinspirada, ergueu prédios que poderiam estar em qualquer subúrbio europeu e desligou-se das raízes que tornaram as nossas cidades únicas. O resultado está à vista: edifícios anónimos, burocráticos, sem alma, temos uma arquitetura que não educa, não inspira e não representa.
Adotar em Portugal uma política semelhante à americana não seria imitar Trump, mas sim reencontrar a nossa própria tradição. Se exigirmos que escolas, tribunais, hospitais e museus respeitem princípios de beleza, harmonia e continuidade cultural, estaremos a investir não apenas em betão e tijolo, mas na dignidade coletiva.
Porque a verdade é esta: um edifício público é uma lição silenciosa. E quando o Estado constrói feio, transmite a mensagem de que os cidadãos não merecem mais do que a mediocridade. Não se trata de copiar modelos ou de cair em nostalgias vazias, mas de reconhecer que a estética importa, porque molda a forma como olhamos o Estado e como nos sentimos parte dele. Num tempo em que tanto se fala de cidadania, democracia e comunidade, nada é mais urgente do que resgatar a beleza como valor político.
Se até Trump conseguiu lançar o debate, que desculpa tem Portugal para continuar a virar a cara?
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