Para o arquitecto paisagista a paisagem é um conceito global e complexo, e para nela intervir deve ter por base o conhecimento científico dos valores presentes e visando sempre encontrar a beleza pelo domínio da arte. Por isso os conceitos de belo e mesmo de sublime influenciam decisivamente o domínio da arquitectura paisagista.
O belo não é forçosamente o bom.
O belo também não é o que está correcto, dependendo muito das sensações que os sentidos nos fazem chegar, daí que se possa partilhar a ideia de que o que é belo é susceptível de variar conforme a mentalidade, o gosto e a sensibilidade do observador.
É por isso que uns acham belo o deserto do Sahara que para outros será detestável, que uns se extasiam com as planuras alentejanas que para outros são desagradáveis e preferem os verdes intensos das paisagens minhotas. Muitos gostam, e ficam empolgados, com uma sinfonia de Beethoven e muitos outros nem por isso…
Em algumas culturas orientais o belo na Natureza tem um carácter quase sagrado, como na pintura chinesa ou japonesa – as montanhas, os grandes rochedos, as árvores retorcidas pelo vento e pela idade, as neblinas que criam ambientes irreais… Já no Ocidente a Natureza selvagem foi sempre motivo de repulsa pelo que a arte nos traz a beleza de paisagens dominadas pelo homem – basta pensar nos frescos de Pompeia.
Estas concepções resultam, das bases religiosas e culturais das civilizações; no Génesis é dito ao homem “….enchei a terra e sujeitai-a, dominai sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam pela Terra”, enquanto no Oriente Buda ensinou “ …que todos os seres vivos estejam em segurança e em paz, os seres vivos fortes e os fracos, os grandes ou pequenos, visíveis ou invisíveis…”
Kenneht Clark, famoso historiador de arte, escreveu que a pintura da paisagem no Ocidente marca as fases da assunção de uma Natureza dominada. A pintura mais antiga era apenas de figuras sagradas da religião, mais tarde começam a surgir pequenos espaços de paisagem em regra como fundo da tela, e a pouco e pouco a importância da paisagem foi-se acentuando.
O belo nem sempre significará o agradável, pode existir para muitos o belo do horrível. Mesmo paisagens que resultam da degradação dos seus componentes podem ser belas. Por exemplo, as escarpas areníticas que resultam de uma imperfeição, que é a erosão que as corroeu, podem criar paisagens com volumes e cores de impacto visual esteticamente agradável, quer dizer têm beleza. Outro exemplo, as minas de Rio Tinto, aqui perto na Andaluzia, apresentam encostas e lagoas de várias cores que resultaram da forte poluição de ácidos – pelo insólito, e se abdicarmos de pensar da causa negativa que lhes deu origem, oferecem beleza pictórica.
A arte da paisagem consegue atingir a beleza, o que é belo, para lá do que a Natureza, por si só, nos possa oferecer em determinada situação.
Já o sublime resulta daquela beleza que proporciona paixão, êxtase, um daqueles estados de consciência em que sentimentos e pensamentos ficam suspensos. Escutar certas obras de Beethoven ou contemplar uma paisagem fabulosa do cimo de uma montanha nos Himalaias podem produzir essa situação de “suspensão”.(*)
Mas a arquitectura paisagista, como arte visual, por muito bela que seja uma determinada obra de jardinagem, não creio que nos faça ultrapassar o belo – maravilhamo-nos com a grandeza dos jardins de Sintra ou com a paisagem fortemente trabalhada pelo Homem, como os socalcos do Douro ou os terraços de arroz, a mais de 2000 m de altitude, no Norte da Índia – mas não ultrapassamos os limites dos nossos sentidos…
(*) Esta nota era o que eu iria dizer de viva-voz quando chegasse a este ponto.
As paisagens dos Himalaias ganham enorme espectacularidade no Butão e no Sikim. Existe aqui a primitiva religião Bon, que tem muito de contemplativo e que adoptou partes do budismo, mas manteve a sua identidade, e há poucos mosteiros. Estive num pequeno mosteiro Bon e ao chegar à borda da encosta fiquei fascinado: o cimo das altíssimas encostas, “quase” por cima das nossas cabeças, já estava coberto de branco da neve, e depois o resto das encostas e do vale, com cores de verdes suaves , com a luz do fim do dia a bater e o silêncio musicado de tudo aquilo, fazia-nos chegar como que à suspensão do folgo – foi o mais perto do sublime que eu vivi.
Sobre o autor do artigo: Fernando Santos Pessoa é arquiteto paisagista e engenheiro silvicultor. Uma figura muito importante na defesa do ambiente e do território. Nasceu na Figueira da Foz mas foi professor nas Universidades de Évora e do Algarve. Recebeu recentemente o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Algarve.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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