Sonho por vezes inalcançável além Pirenéus, impositora de regras e de normas, atentando à soberania nacional, fonte de subsídios que pareciam inesgotáveis, espaço de livre circulação de pessoas e de bens, continente, união política, espaço económico, palco de confrontos históricos e de conquistas democráticas, etc, … a enumeração de representações, ora eufóricas ora disfóricas, da Europa seria interminável. A Europa somos todos nós, unidos na diversidade.
A dimensão que molda a identidade europeia é a sua diversidade linguística e cultural. Temos na Europa 24 línguas oficiais, mais uma centena de línguas europeias regionais e/ou locais e de variedades de línguas nacionais e de várias centenas de línguas de outras partes do mundo para cá trazidas ao longo da história. Somos um dos espaços mais multilingues do mundo, o que, longe de ser um entrave, é uma das maiores riquezas do projeto europeu. Valorizar essa diversidade não é apenas um gesto de respeito pelas identidades locais — é uma estratégia de inclusão e de coesão social.
A política linguística da União Europeia tem procurado, ao longo das últimas décadas, equilibrar mobilidade com pertença e inclusão, comunicação com identidade. Instrumentos como o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas e programas como o Erasmus+ mostram que aprender línguas, além de útil, é um ato político de afirmação da coexistência de culturas e de abertura aos Outros.
A pressão por uma homogeneização linguística, a propalada supremacia do inglês como pseudo língua franca e suposta panaceia para o desenvolvimento e para a excelência, associadas a desleixos de governos e instituições, além de alguma fragilidade de muitas línguas regionais e variedades locais, ameaçam o equilíbrio entre o local e o global e contribuem para o desaparecimento de saberes, de culturas e de línguas. Veja-se quão curioso é dizer que se afirmam culturas locais, inventando denominações para saberes tradicionais num código com ar de inglês, ao invés de recolher os recursos terminológicos, testemunhos do tempo e da memória, que as verbalizam!
Defender a diversidade linguística é conservar tradições, o património, a memória coletiva, é garantir que todos os cidadãos europeus, independentemente da sua origem, possam participar plenamente no espaço público europeu com a sua voz, as suas línguas, a sua história.
É nos espaços de ensino e de educação, nos espaços culturais, nas políticas públicas que esta cidadania linguística se constrói. Ensinar línguas, sim; mas, sobretudo, ensinar a viver com línguas. A educação para o multilinguismo deve formar cidadãos capazes de dialogar, compreender e colaborar em contextos plurais. A escola e a universidade, em particular, têm aqui uma responsabilidade clara de formar europeus interculturais, críticos e solidários.
Num tempo em que o populismo e a exclusão ganham terreno, reafirmar a importância das línguas é defender a democracia. A diversidade linguística é a prova viva de que a Europa pode ser unida sem ser uniforme, solidária sem ser centralizadora, inovadora, respeitando e enaltecendo o seu passado.
A Europa do futuro será aquela que souber fazer das suas línguas pontes e não muros. É isso que estamos a fazer? Ao leitor de ajuizar!
Sobre o autor do artigo: Manuel Célio Conceição é professor de Ciências da Linguagem na Universidade do Algarve, desde 1992, e presidente ex-officio do Concelho Europeu das Línguas.
Desempenhou as funções de diretor da Faculdade de Ciências Humanas e Socias da Universidade do Algarve, de Pró-reitor e Vice-presidente do Conselho Geral da UAlg.
Coordenador de vários projetos de investigação, entre outros, sobre políticas linguísticas, com financiamento europeu. É atualmente responsável pela comunicação de ciência no seio da Universidade Europeia dos Mares (SEA_EU), aliança de que a Universidade do Algarve é membro e representa ainda esta aliança no grupo de trabalho sobre multilinguismo na rede europeia FOREU4ALL.
Foi distinguido pelo município de Faro com a medalha de mérito – grau Ouro em 2016 e agraciado com os títulos honoríficos de “chevalier”(2013) e “officier” (2023) da Ordem das Artes e das Letras pela República Francesa.

“40 Visões da Europa”
A 12 de junho de 1985, Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão às então Comunidades Europeias (Comunidade Económica Europeia, Comunidade Europeia da Energia Atómica e Comunidade Europeia do Carvão e do Aço). Este foi o terceiro alargamento.
O Europe Direct Algarve, a CCDR Algarve, a Eurocidade do Guadiana e outros parceiros transfronteiriços associaram-se para assinalar a data. A rubrica «40 Visões da Europa» vai dar voz a 40 pessoas (líderes políticos e associativos, jovens, cidadãos ,..)
Entre 4 de maio e 12 de junho (data da assinatura dos 40 anos do Tratado de Adesão) todos os dias um artigo . Mais informação sobre a campanha na página conjunta (4) Facebook
Leia também: 40 visões da Europa: Europa: Hoje mais do que nunca | Por Rúben Pires

O Europe Direct Algarve faz parte da Rede de Centros Europe Direct da Comissão Europeia. No Algarve está hospedado na CCDR Algarve – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.
CONSULTE! INFORME-SE! PARTICIPE! Somos a A Europa na sua região!
Newsletter * Facebook * Twitter * Instagram
















