Assinalam-se este ano os 40 anos do tratado de adesão da República Portuguesa à, então, CEE – Comunidade Económica Europeia, antecessora da União Europeia que hoje conhecemos. Esta adesão, com efeitos a partir do dia 1 de janeiro de 1986, marca o mais importante ponto de viragem da história do Portugal contemporâneo, a seguir ao 25 de abril de 1974.
A adesão à CEE, aproximou-nos de uma Europa da qual estávamos totalmente desligados fruto dos mais de 40 anos de ditadura. A palavra “convergência” entrou no nosso léxico para descrever o esforço que tínhamos pela frente para nos aproximarmos do nível de vida de países europeus que, agora percebíamos, eram os nossos companheiros de jornada. De repente estávamos na “primeira liga” e isso obrigou-nos a olhar para as nossas muitas carências e para o trabalho gigante que, enquanto sociedade, país e coletivo, ainda tínhamos pela frente. Mas trouxe-nos sobretudo exemplos para onde olhar, quando ainda estávamos, enquanto país a aprender o que era a democracia.
Passados 40 anos, e sem deixar de sublinhar os muitos erros que se cometeram, a começar por uma classe política que floresceu deixando-se deslumbrar mais pelas benesses dos cargos que ocupa do que pelo privilégio de ter como função uma missão de serviço aos outros e à sua comunidade, parece-me profundamente injusto não reconhecer o muito que beneficiámos ao fazer parte da União Europeia.
Sem querer ser exaustiva, já que basta aceder a um computador com um motor de busca para se perceber como todos os indicadores económicos e sociais, demonstram, sem margem para dúvidas, os benefícios que retirámos com esta adesão, vou focar-me apenas num ponto que nos dias de hoje marca a agenda política: a corrupção.
A corrupção tem sido usada como arma de arremesso político, sobretudo por partidos e movimentos populistas que sabem que a maior parte da população consome a informação que lhe chega através das redes sociais como sendo fidedigna, sobretudo se a mensagem que é passada, mesmo sem ser verdadeira, aparece simplificada em slogans “orelhudos” que facilmente se memorizam e replicam. Frases como: “os políticos são todos iguais” ou “querem é tacho”, dão voz à enorme insatisfação das pessoas e parecem ser validadas com as inúmeras noticias de casos de corrupção, associados a políticos ou pessoas que ocupam cargos públicos.
O que gostaria aqui de assinalar é que é precisamente o facto de estas noticias sobre investigações a figuras públicas e de poder aparecerem mais frequentemente na comunicação social e no espaço público, que nos devia fazer perceber que isso só acontece numa democracia com algum nível de maturidade, não o contrário. Para aqueles que nos atiram com o argumento saudosista de que antes é que era bom, e que os políticos eram mais sérios e não se “aproveitavam” dos cargos que ocupavam, seria importante não esquecerem que antes não havia o escrutínio que há hoje, que, provavelmente, haveria tanta ou mais corrupção, só que passava pelas malhas da justiça e não chamava a atenção da comunicação social.
Ocorre-me um outro exemplo, que talvez ilustre melhor o meu raciocínio, para ajudar a perceber onde quero chegar:
Alguém acredita que durante o Estado Novo não havia violência contra as mulheres em Portugal? Alguém acredita que antes do 25 de Abril não havia mulheres assassinadas às mãos dos maridos/companheiros?
Alguém acredita que antes da adesão à UE não havia mulheres sujeitas a uma vida inteira de agressões, violações, humilhações, que tinham que suportar em silêncio?
Alguém acredita que este fenómeno é fruto da adesão à UE e que antes a vida das mulheres em Portugal era um mar de rosas?
Quero acreditar que não haja um/a único/a leitor/a que me esteja a ler neste momento e que acredite nisso.
A diferença é que agora amadurecemos como país, amadurecemos como democracia e já sabemos que quando algo está mal podemos denunciar, e sabemos, ainda que com alguma desconfiança, por vezes, que existem instituições que nos protegem.
Agora já falamos.
Agora já não calamos.
E este é um exercício que podemos transpor para tantas outras áreas da nossa vida coletiva:
- Temos um sistema educativo com problemas mas muito mais democratizado do que há 40 anos;
- Temos um sistema de saúde com problemas mais muito mais democratizado do que há 40 anos;
- Temos um sistema de justiça com problemas mas muito mais democratizado do que há 40 anos;
- Temos uma economia com problemas mas muito mais democratizada e inclusiva do há 40 anos;
- Temos uma União Europeia com problemas mas que nos garantiu condições de vida muito melhores do que há 40 anos.
E estes são problemas que são comuns ao espaço Europeu (e do mundo) e que precisam da cooperação de todos para que se encontrem soluções eficazes e duradouras.
A pergunta que fica é se queremos trabalhar para resolver os problemas que enfrentamos, em conjunto, ou se vamos atrás de slogans orelhudos que pouco mais fazem do que dividir-nos e apontar alvos fáceis – receita que historicamente já sabemos para onde caminha.
Sobre a autora do artigo: Anabela Afonso é uma cidadã europeia, portuguesa, algarvia, farense e bordeirense.

“40 Visões da Europa”
A 12 de junho de 1985, Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão às então Comunidades Europeias (Comunidade Económica Europeia, Comunidade Europeia da Energia Atómica e Comunidade Europeia do Carvão e do Aço). Este foi o terceiro alargamento.
O Europe Direct Algarve, a CCDR Algarve, a Eurocidade do Guadiana e outros parceiros transfronteiriços associaram-se para assinalar a data. A rubrica «40 Visões da Europa» vai dar voz a 40 pessoas (líderes políticos e associativos, jovens, cidadãos ,..)
Entre 4 de maio e 12 de junho (data da assinatura dos 40 anos do Tratado de Adesão) todos os dias um artigo . Mais informação sobre a campanha na página conjunta (4) Facebook
Leia também: 40 visões da Europa: A união na diversidade linguística | Por Manuel Célio Conceição

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