Para começar o ano, faço uma retrospetiva de alguns dos melhores livros lidos em 2025. E, como tal, não podia contornar os maravilhosos álbuns infantojuvenis da AKIARA. Entre os vários livros publicados ao longo do ano, destaco alguns dos favoritos. Realce-se ainda que a AKIARA, embora tenha diversos outros títulos, é uma editora que opta por publicar de forma refletida, ou seja, limita-se a publicar entre seis a oito livros por ano (em três línguas simultaneamente, pois são publicados em português, espanhol e catalão). Como se pode ler no final de cada título, “cada livro merece toda a nossa atenção e porque não queremos inundar de novidades um mercado já saturado”.
A AKIARA nasceu em Barcelona em 2018 pela mão de Inês Castel-Branco como continuação da Pequena Fragmenta, a coleção infantil da Fragmenta que a editora tinha criado e dirigido desde 2015.
AKIARA soa como a contração de «aqui e agora» (mas escreve-se com K, a letra mais brincalhona para as crianças) e também faz alusão ao nome japonês Akira 明, que significa ‘luminoso, luminosa’. Esta editora publica exclusivamente livros de produção própria, cuidadosamente escritos e ilustrados, para crianças e jovens de todas as idades, orientados para cultivar a interioridade e a qualidade humana. Trabalham com critérios de sustentabilidade, minimizando o uso de plásticos e o impacto ambiental. Imprimem localmente e sobre papel certificado FSC.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
No final de cada livro, e no site da editora, o leitor pode inteirar-se dos vários pilares de Ecoedição em que esta editora se sustenta
Ainda no decurso da preocupação com a sustentabilidade, desde setembro de 2024, a editora deu novo passo no caminho da ecoedição, tendo-se tornado sócia colaboradora do Instituto da Ecoedição, que tem por missão promover a publicação sustentável baseada no cálculo, minimização e comunicação do impacto ambiental dos livros, para ajudar a tomar consciência desse impacto. No final de cada livro, e no site da editora, o leitor pode inteirar-se dos vários pilares de Ecoedição em que esta editora se sustenta.
Tão simples é um álbum com texto de Alex Nogués e ilustrações de María Elina. Este Akialbum, número 29, foi publicado em outubro de 2024. A tradução é de Catarina Sacramento.
Este é o sexto livro do escritor, geólogo e naturalista Alex Nogués na AKIARA, depois de outros títulos como A praia dos inúteis ou Às vezes o bosque…
Como podemos ler na sinopse:
«A vida inunda tudo à nossa volta numa infinitude de formas, cores, sons, cheiros, texturas e sabores. Dispomos de inúmeras oportunidades para nos deixarmos surpreender, para descobrirmos que tudo é novo e eterno ao mesmo tempo. O ninho, a flor, o outro e o amor.
Não seria triste passar pela vida sem participar nestes encontros e experiências?»
As ilustrações do livro são totalmente analógicas da autoria da premiada artista argentina María Elina, numa combinação de aguarela, guache ou pastel para criar uma atmosfera mais autêntica e realista.
Tão simples começa, como o próprio título insinua, de forma simples, com frases breves, lapidares, dirigidas ao leitor, interpelando-o diretamente, convidando-o a sentir, a pensar, a desfrutar. Igualmente simples são as ilustrações das primeiras páginas, como se o mundo estivesse a nascer à medida que o menino percorre as próximas páginas, consoante o mundo e a natureza em redor ganha profusão e cor e variedade.
Este original álbum ilustrado situa-se assim no limiar de uma aparente história da evolução da Humanidade, em que o menino cujo olhar sobre o mundo adotamos se apresenta naturalmente despido, e de uma “tomada de consciência”, pois incita-nos e convida-nos a redescobrir a capacidade de nos maravilharmos com as coisas aparentemente simples da natureza: um nascer ou pôr do sol, um riacho, o fundo do mar, uma semente, uma floresta, um céu estrelado…

Sobre Alex Nogués:
«Nasci em Barcelona, na primavera de 1976. Desde então, não deixei de me espantar. Esta podia ser a minha biografia. Mas, para sermos justos, deveria acrescentar que encontrei o amor, que tive uma infância feliz e que sou pai de dois seres alucinantes. A fascinação levou-me a ser geólogo e a imaginação, escritor. Graças a isso, tenho podido trabalhar com artistas fabulosas, como a María Elina. Ou com a equipa da Akiara Books, com quem vivi a aventura de publicar seis livros, contando com este que tens nas mãos. Contudo, cada uma dessas sortes e conquistas devo-as à curiosidade e ao abismo de maravilhas que se abriu no instante em que nasci.
Hoje, continuo a escrever e a procurar a surpresa nas folhas, nas ondas, na berma dos caminhos. E, seja qual for o tempo que me resta, vivo com a tranquilidade de saber que a natureza preencherá esses dias de momentos memoráveis.»

Sobre María Elina:
«Nasci em Buenos Aires, em julho de 1975. Os meus estudos estiveram sempre relacionados com as artes visuais: terminei o curso de Design de Imagem e Som na Universidade de Buenos Aires e complementei os meus estudos com oficinas de fotografia, artes plásticas e ilustração.
Comecei a desenhar desde muito cedo. Como todas as crianças! Só que eu continuei a fazê-lo, nunca mais parei. Ao princípio, desenhava só para mim. Na infância, tive a sorte de estar rodeada de livros com imagens, livros de arte, catálogos de museus e, sobretudo, livros ilustrados de botânica, com os quais aprendi muito.
Hoje, dedico inteiramente os meus dias a desenhar e a pintar. As plantas e a vida na natureza continuam a ser um tema central no meu trabalho, e fazer livros é a parte mais bonita e divertida.»

A tradutora, Catarina Sacramento, declara:
«Nasci em 1977, no ano do punk, mas nunca gostei de grandes confusões. Vivi metade da vida em Leiria e a outra metade em Lisboa, com um salto a Macau pelo meio. Aprendi a ler e escrever aos 6 anos e desde então não faço outra coisa. Estudei Ciências da Comunicação e entrei no jornalismo pela porta da cultura e das artes. Escrevi sobre música no jornal Blitz, sobre comida na revista Time Out Lisboa e depois mudei-me para o mundo dos livros, onde pratico caça ao erro e tiro à gralha. Gosto de palavras, do som que fazem ao sair da boca, da forma como se podem moldar com as mãos — e do incrível poder que têm para fazer rir, sentir e pensar. Adoro viajar, dentro dos livros e fora deles. Mas não consigo passar muito tempo longe do mar, nem dos meus seres humanos preferidos. Sou curiosa e nunca saí da idade dos porquês. Acho que o mundo seria um lugar mais triste sem os surrealistas, sem abraços apertados e sem chocolate.»

A nogueira é um álbum com texto de Gonzalo Moure, ilustrações de Araiz Mesanza e tradução de Catarina Sacramento.
«Numa tarde de novembro, veio um vento muito forte que arrancou a nogueira da escola. O seu destino parecia ser a motosserra, a lenha, o fogo… mas a vontade de uma menina mudou tudo, para sempre.”
A narrativa inicia justamente com uma frase sonante, a relembrar como tudo na vida é um ciclo natural e intemporal: “Morri numa tarde de novembro.”
Mas aquilo que parece ser o fim é, afinal, apenas o início da história, quando o “destino da nogueira arrancada pelo vento não parecia ser outro senão a motosserra, a lenha, o fogo.”
Ilustrada por grandes planos, mediante uma sucessão de pormenores de um céu tenebroso de tempestade, a lembrar desolação e destruição, desfia-se a história, gradualmente, deste “eu”, que cedo percebemos ser a voz da própria nogueira, que aqui nos narra na primeira pessoa a sua ressuscitação, de como começou por ser a nogueira da Maricruz, porque foi no seu terreno que cresceu, até passar a ser a árvore de uma menina determinada chamada Áfrika.
Como esclarece o autor numa nota final, usual nos livros da AKIARA, escrita num tom tão singelo e lírico quanto despido, no dia seguinte a ter visto a árvore tombada “alguém me avisou de que uma família com uma menina tinha salvado a nogueira do fogo e estava a transferi-la para a sua quinta, perto do mar. Cheguei a tempo de ver como a levavam pelo caminho que descia até à praia, na escavadora de um trator. À tarde, vi-a já plantada num prado, perto de uma nogueira mais velha, que até então tinha vivido perto de outras árvores, mas sem mais nenhuma nogueira ao seu lado. Assim, havia um destino longe da motosserra e do fogo: a vida.”
Como conclui o autor, num texto que subsume o conteúdo destes preciosos álbuns com que a AKIARA nos tem presenteado de forma constante nos últimos anos, e certamente se prepara com as próximas novidades deste novo ano editorial, o mundo é um livro pronto a ser explorado.
“Viver, escutar, ver: encontrar. Esta é a equação. O ser humano é o único ser vivo na Terra — e, de momento, que saibamos, no Universo — que é capaz de contar uma história, de narrar algo que tenha acontecido. Portanto, cada um à sua maneira, não há ser humano que não seja contador de histórias, e o escritor é mais um, mas um que não só as conta a quem lhe está próximo como também as lança aos outros nesta garrafa a que chamamos livro: para quem a queira abrir, ler, escutar.”
O álbum A nogueira é, afinal, uma história real, que ocorreu numa aldeia das Astúrias, e aqui contada pela voz da própria nogueira, a recordar-nos “que a vida pode sempre voltar a brotar.”

Gonzalo Moure encerra justamente com uma série de interrogações que se respondem facilmente:
“Quem não teria vontade de contar algo tão bonito?
E a partir de que ponto de vista? O meu, de simples testemunha? O da menina que pediu para não transformarem a nogueira em lenha?
Por fim, sentei-me na relva e chegou-me a resposta. Eu, a nogueira… «Morri numa tarde de novembro…» Não podia ser outra voz.
Ou alguém acredita que as nogueiras não pensam, não falam?
Basta apenas… escutar.”
Na nota autobiográfica de Gonzalo Moure podemos ler:
«A minha mãe amava as árvores e os bosques, e tive a sorte de me deixar em herança esse mesmo amor, e uma coleção de livros sobre bosques. Depois, viu-me plantar árvores. Dois teixos que serão milenares quando tu e eu já não estivermos aqui. Agora já têm trinta e cinco anos e medem mais de quinze metros. Dizem que as folhas do teixo são venenosas, mas a mim parecem-me «bem-nenosas». A mim fazem-me muito bem, dão-me paz e serenidade. Com a minha mulher também plantei ciprestes, cedros dos Himalaias, um bordo vermelho, abetos, uma laranjeira, uma «bola de neve», um jacarandá e… uma nogueira. Todas elas nos têm acompanhado nesta vida, e cá continuarão.
À sombra de uma pereira muito velha, escrevi um dos meus primeiros livros, e, com eles diante dos olhos, escrevi todos os outros. Escrevo sobre árvores, sobre cavalos, sobre pássaros e gatos, sobre cães… E também sobre crianças. Porque, para os meus olhos já velhos, uma criança é o mesmo que uma árvore: continuará cá quando eu já não estiver, verá coisas em que eu agora não acreditaria, porque os dois, árvore e criança, são o futuro. Neste livro, ambos se unem: uma menina e uma nogueira. Uma nogueira que já seria lenha se não tivesse sido a carícia tão terna de uma criança que, como eu, e certamente como tu, também amava, ama as árvores. Esta é uma história de amor e vida. E já é tua.»

A ilustradora Araiz Mesanza conta:
«Nasci em Vitoria-Gasteiz (País Basco, Espanha) no último dia de agosto de 1983. Passei todos os verões com o meu pai, a minha mãe e a minha irmã entre faias e rios, e uma tenda de campismo. Nunca deixei de desenhar, mas sobretudo nunca deixei de desenhar árvores. Estudei Belas-Artes em Bilbau e depois decidi especializar-me em ilustração na Escola Massana de Barcelona.
Desde 2016 vivo em Oslo, na Noruega, com o meu companheiro e a minha filha. Passei muito tempo a olhar para gelo, noites intermináveis e dias intermináveis, e também para salgueiros, pinheiros gigantes e musgo.
Fiz um mestrado em Design Gráfico e Ilustração na Academia Nacional das Artes de Oslo. Também trabalho em autopublicação, impressão e banda desenhada. E, claro, adoro livros!»
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