Karen Rodrigues garante que viu desaparecer, no concelho de Loulé, o projeto de vida que construiu num terreno onde viveu com os filhos. Primeiro, diz, foram furtados vários bens. Depois, a própria casa móvel terá sido levada por camião. O Ministério Público arquivou o processo por não ter conseguido identificar o responsável nem localizar a habitação.
Karen Rodrigues vive atualmente em França, mas foi no concelho de Loulé que, em 2018, começou a construir um projeto de vida que descreve como simples, ligado à natureza e pensado para reduzir encargos. Comprou, com o então marido, um terreno numa zona calma e arborizada, com vista para a serra, e ali instalou uma casa móvel em segunda mão, que foi recuperando por dentro e por fora com trabalho próprio.

“Mais do que a perda material, que é significativa, fica a sensação de desproteção e de falta de resposta por parte do sistema”
Ao POSTAL, explica que a escolha daquele espaço representava mais do que uma solução habitacional: era uma tentativa de criar uma vida mais tranquila, com menos custos e em maior contacto com a natureza. Ao longo do tempo, foi melhorando o terreno, montando uma cobertura para proteger a casa, um deck em madeira com cerca de 50 metros quadrados, uma cozinha exterior, zona de refeições, jardim e pequenas áreas de cultivo e de criação artística.
Durante cerca de dois anos, viveu ali, primeiro sozinha com o bebé e, mais tarde, também com a filha mais velha. Segundo conta, foi um período marcante, construído com esforço pessoal e com ajuda pontual de voluntários.
Um projeto de vida no interior do concelho de Loulé
Na mensagem enviada ao POSTAL, Karen Rodrigues recorda que o terreno foi adquirido com o objetivo de “construir um modo de vida mais simples, em contacto com a natureza e com menos encargos financeiros”. Como não tinha possibilidade de construir legalmente, optou por soluções alternativas: o ex-marido já tinha uma autocaravana e ela comprou uma casa móvel usada, em bom estado, que viria a instalar no terreno.

Mais tarde, numa publicação feita em março na sua página de Facebook, resumiu essa decisão com ironia: “Em 2018, tive uma ideia ousada: ter um teto.”
A mesma publicação, marcada por um tom entre o sarcasmo e a revolta, prossegue: “Nada de extravagante — comprei uma casa móvel e um terreno. Como não tinha meios (nem autorização divina das entidades competentes) para construir, fiz o que qualquer cidadão razoável faria: coloquei a casa móvel no terreno e vivi lá dois anos. Simples. Funcional. Meu.”
Mudança para França e primeiros furtos
Entretanto, após uma tentativa de reconciliação com o ex-marido, Karen Rodrigues mudou-se para França, onde passou a residir. A casa ficou no terreno, fechada, e a proprietária regressava periodicamente a Portugal para acompanhar o espaço.
Segundo relatou ao POSTAL, tudo se alterou em 2023, quando, ao regressar de férias, foi avisada por um vizinho de que várias pessoas tinham retirado bens do terreno no dia anterior. No local, confirmou o desaparecimento de eletrodomésticos, equipamentos e vários objetos que estavam na zona exterior e na garagem.
Contactou as autoridades, mas diz ter-lhe sido transmitido que seria difícil identificar os responsáveis. Com receio de novos furtos, retirou parte do que ainda restava no exterior. Ainda assim, a situação agravou-se. A casa móvel terá sido, depois disso, alvo de intrusão, vandalismo e remoção de vários elementos, incluindo janelas.
Na publicação feita em março, Karen Rodrigues escreveu: “Primeiro, pequenos detalhes: janelas, objetos, coisas sem importância — afinal, quem nunca precisou de uma janela extra lá em casa?”
A casa inteira levada por camião
Perante a degradação da situação, Karen Rodrigues ponderou vender a casa e chegou a falar com um vizinho interessado na compra. Esse mesmo vizinho viria, mais tarde, a alertá-la para um desenvolvimento que considerou impensável: a casa tinha sido levada por um camião de uma empresa de transportes.

“Meses depois, esse mesmo vizinho informou-me que tinha visto a casa a ser transportada por um camião de uma empresa de transportes. Não tendo autorizado qualquer venda ou remoção, percebi imediatamente que algo estava errado”, escreveu no e-mail dirigido ao POSTAL.
Na publicação de março, a denunciante descreveu o episódio nestes termos: “Mas em 2024, atingimos outro nível de sofisticação no crime: roubaram a casa. Sim, a casa inteira.”
E acrescentou: “Não foi um impulso. Não foi um erro. Foi logística. Planeamento. Execução.”
Contactos, dados falsos e queixa às autoridades
Após saber do transporte, Karen Rodrigues contactou a empresa, que, segundo afirma, confirmou ter transportado a casa e as estruturas associadas, incluindo o telhado, o deck e outros elementos. Ainda assim, diz ter encontrado dificuldades em obter informação clara sobre a pessoa que contratou o serviço.
“Foram-me indicados dados que, posteriormente, se revelaram inválidos ou inexistentes (nome, número de contribuinte e morada)”, refere na mensagem enviada ao POSTAL.
Na publicação no Facebook, Karen Rodrigues reforça essa ideia: “Pedi informações. Deram-me um nome falso. Um número de contribuinte inexistente. Uma morada digna de um filme de ficção científica — um sítio onde, basicamente… não há nada.”

Foi então apresentada queixa à GNR e iniciado o processo formal. Como reside em França, Karen Rodrigues passou procuração ao pai para a representar em Portugal. Ainda assim, garante que o acompanhamento do caso foi limitado e sem evolução significativa.
“Como estou em França, passei procuração ao meu pai. Resultado? Nunca foi chamado. Nunca foi ouvido. Nunca foi… nada”, escreveu também na mesma publicação.
O que diz o despacho de arquivamento
O despacho do Ministério Público, datado de 9 de março de 2026, declara encerrado o inquérito e determina o arquivamento dos autos.
No documento, a magistrada refere que o processo teve origem num auto de notícia relativo a factos suscetíveis de integrar, em abstrato, a prática de um crime de furto qualificado. O inquérito procurou apurar a identidade e o paradeiro do autor dos factos denunciados, mas sem sucesso.
Segundo o despacho, “não foi possível apurar a identidade nem o local de residência do indivíduo que contratou a empresa ‘Albumov’ para fazer o transporte da casa”. O documento acrescenta que apenas se apurou que essa pessoa se identificava como Colin Michael Ridgeway e que indicou uma morada na Urbanização Ingrina Sol, Parque de Campismo da Raposeira, sendo que, de acordo com o Ministério Público, a pessoa em causa não é ali conhecida.
Ainda segundo o despacho, militares da GNR deslocaram-se ao local onde a casa teria sido descarregada, de acordo com as coordenadas fornecidas pelo motorista do camião, mas “não se logrou encontrar a referida casa nem foi encontrada nesse local, qualquer casa de madeira”.
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