Os aeroportos portugueses continuam sob pressão devido às longas filas no controlo de fronteiras, com passageiros a relatarem horas de espera e perda de voos. O problema está associado à implementação do Sistema Europeu de Entradas e Saídas, conhecido como EES, e às limitações operacionais e estruturais dos aeroportos nacionais.
A situação ganhou maior visibilidade depois de Clarissa Ward, correspondente internacional da CNN, ter publicado nas redes sociais um vídeo a mostrar centenas de passageiros numa fila prolongada no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. A jornalista descreveu o cenário como “caos” e relacionou a demora com a leitura de dados biométricos de passageiros com passaportes de países fora da União Europeia.
Sistema europeu aumenta pressão
O EES é um sistema informático criado para registar eletronicamente a entrada e saída de cidadãos de países terceiros no espaço Schengen. Na prática, substitui os carimbos manuais nos passaportes por registos digitais e biométricos.
Em Portugal, o sistema entrou em funcionamento em outubro de 2025, tal como noutros países do espaço Schengen. Desde então, os tempos de espera nos controlos de fronteira agravaram-se, sobretudo no aeroporto de Lisboa, onde alguns passageiros chegam a esperar várias horas.
A Comissão Europeia rejeita que as filas sejam provocadas apenas pelo EES e aponta o problema como interno a Portugal. O Governo português, por sua vez, tem defendido que as dificuldades no controlo de fronteiras afetam aeroportos de vários países europeus.
Bruxelas detetou falhas graves
Em dezembro, a Comissão Europeia realizou uma inspeção surpresa às fronteiras aéreas e marítimas portuguesas. O relatório final identificou “graves deficiências” no controlo de fronteiras, com destaque para o aeroporto Humberto Delgado.
Entre os problemas apontados estavam falhas relacionadas com recursos humanos, falta de equipamentos e simplificação de procedimentos de segurança. Na sequência desses alertas, o Governo suspendeu temporariamente a aplicação do EES durante três meses, quando o sistema ainda estava numa fase de implementação gradual.
Apesar da troca inicial de responsabilidades entre Lisboa e Bruxelas, o Governo acabou por reconhecer a gravidade da situação. O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, classificou os tempos de espera superiores a duas horas como um “embaraço” para Portugal.
Reforço de meios nos aeroportos
Para tentar aliviar a pressão, foram anunciadas medidas imediatas no aeroporto de Lisboa. Entre elas estão a ampliação da zona de controlo de fronteiras, o reforço de 48 agentes da PSP e a instalação de mais postos de controlo documental.
Também foram anunciados mais e-gates, as chamadas portas eletrónicas, tanto nas chegadas como nas partidas. O objetivo é acelerar o processamento de passageiros e evitar que as filas se prolonguem durante o pico do verão.
A partir de 4 de julho, os aeroportos portugueses deverão contar com mais 340 agentes da PSP com formação específica. Segundo o ministro da Administração Interna, Luís Neves, Lisboa receberá 140 agentes, o Porto 100 e os restantes serão distribuídos por Faro, Funchal e Ponta Delgada.
Turismo teme impacto na imagem do país
O setor do turismo alerta para consequências sérias na imagem de Portugal. Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens, afirmou à Euronews que o problema tem impacto a curto, médio e longo prazo.
O responsável lembra que o aeroporto é muitas vezes o primeiro contacto do turista com o país. Quando essa experiência começa com filas de duas ou três horas, a perceção do destino pode ficar marcada de forma negativa.
A situação torna-se ainda mais sensível porque os passageiros gravam vídeos, tiram fotografias e partilham as imagens nas redes sociais. Esses conteúdos podem tornar-se virais e prejudicar anos de investimento na promoção de Portugal como destino turístico.
Lisboa continua a ser o ponto mais crítico
As companhias aéreas também reconhecem melhorias recentes, mas mantêm preocupações. António Moura Portugal, diretor-geral da Associação de Companhias Aéreas em Portugal, defende que o essencial é garantir fluidez, previsibilidade e razoabilidade no controlo de fronteiras.
Segundo o responsável, o problema não está no conceito do EES, mas na forma como está a ser executado. O sistema europeu pode trazer benefícios em matéria de segurança, combate à fraude documental e controlo de permanências irregulares, mas a sua aplicação tem criado fortes restrições operacionais.
Lisboa é o caso mais delicado porque o aeroporto já trabalhava no limite. A infraestrutura, considerada desatualizada face às exigências atuais, tem dificuldade em responder ao volume de passageiros e às novas exigências tecnológicas.
Especialistas apontam falhas de planeamento
Pedro Castro, fundador da SkyExpert e consultor na área da aviação, considera que o problema resulta de uma combinação de fatores técnicos e operacionais. Na sua análise, houve falhas de planeamento na preparação e implementação do novo sistema.
Entre os problemas referidos estão equipamentos que não funcionam como esperado, falhas de software, processos pouco afinados e falta de efetivos dimensionados para a procura. Para o especialista, a complexidade do EES poderia ter sido mitigada com uma preparação mais eficaz.
Apesar das medidas já anunciadas, permanece a dúvida sobre a resposta durante o pico do verão. Se as filas continuarem, operadores turísticos internacionais poderão encaminhar visitantes para destinos concorrentes, aumentando o risco de Portugal perder competitividade no setor que mais depende da boa imagem junto dos viajantes.
















