A história de D. Luís Filipe de Bragança, filho mais velho do rei D. Carlos, é uma das mais singulares da monarquia portuguesa. Preparado desde cedo para ocupar o trono, viu a sua vida interrompida aos 20 anos no regicídio de 1908, em Lisboa. Por poucos minutos, sobreviveu ao pai, tornando-se tecnicamente rei, mas sem nunca ter governado, o que lhe valeu o epíteto de “rei que não reinou”.
Foi a 1 de fevereiro de 1908, quando a família real regressava de Vila Viçosa, que tudo aconteceu. Ao atravessarem o Terreiro do Paço, a carruagem aberta foi alvo de tiros disparados por dois militantes republicanos, Manuel Buíça e Alfredo Costa. D. Carlos morreu de imediato e o príncipe herdeiro, atingido no peito e depois no rosto, ainda tentou reagir com a sua arma, mas acabou por sucumbir 20 minutos depois, de acordo com o Guinness World Records, que aponta este momento como o “reinado mais curto de sempre”.
Na mesma carruagem seguia o irmão mais novo, D. Manuel, que escapou ileso e acabaria proclamado rei aos 18 anos, de acordo com o Observador.
Uma infância marcada por episódios ‘curiosos’
Luís Filipe teve uma infância acompanhada de perto pela rainha Amélia e pela avó, D. Maria Pia. Aos oito meses escapou a um incêndio no quarto do paço de Vila Viçosa, ficando com cicatrizes. Noutra ocasião, ao trocar a fava do bolo-rei com o irmão Manuel, terá dito em tom profético: “Será rei tanto quanto eu puder”. Reconhecido oficialmente como príncipe herdeiro após a subida de D. Carlos ao trono em 1889, cedo iniciou a sua formação militar e foi apresentado ao país em cerimónias públicas.
Preparado para reinar
A educação do príncipe real foi rigorosa. Aos 12 anos passou a ser acompanhado por Mouzinho de Albuquerque e por um percetor estrangeiro. Estudou línguas, ciências, artes e disciplinas ligadas à governação, como direito, filosofia e estratégia militar.
A rotina era intensa, com aulas desde cedo até ao final da tarde, mas havia espaço para passeios, caçadas e atividades familiares. Aos 14 anos prestou juramento como príncipe real no Parlamento, comprometendo-se a respeitar a Constituição e a servir a pátria.
Primeiras missões oficiais
Aos 15 anos representou Portugal na coroação de Eduardo VII, em Londres, onde foi distinguido com a insígnia de cavaleiro da Ordem da Jarreteira, uma das mais prestigiadas condecorações britânicas. A imprensa estrangeira destacou a sua simpatia e maturidade, refere a mesma fonte. Em viagens pelo país, contudo, chegou a ser alvo de críticas devido a alegadas atitudes distantes em relação ao povo, algo que manchou a reputação do seu aio.
Pouco depois, assumiu a primeira missão como regente em Lisboa, durante a ausência do pai, demonstrando prudência política.
O príncipe na vida adulta
Já perto da maioridade, Luís Filipe começou a assumir responsabilidades de Estado, recebendo líderes estrangeiros e substituindo o rei em várias ocasiões. Muitos viam nele qualidades para reinar: bom senso, capacidade de escuta e preparação cuidadosa. Também manteve contactos com outras casas reais europeias, sendo apontado como possível noivo de várias princesas, embora nunca tenha oficializado qualquer compromisso.
O contexto político e a tragédia
Quando completou 18 anos, a monarquia enfrentava um clima de forte instabilidade. O governo de João Franco governava sem Parlamento e a oposição republicana ganhava força nas ruas. O descontentamento popular agravava-se com críticas aos gastos da Casa Real.
Foi nesse cenário que, após uma tentativa falhada de golpe, os atentados se consumaram a 1 de fevereiro de 1908. O regicídio pôs fim à vida de D. Carlos e do herdeiro, deixando o trono para D. Manuel II, que governaria apenas dois anos antes da implantação da República, em 1910, de acordo com a fonte acima citada.
O “rei que não reinou”
A imagem de D. Luís Filipe ficou marcada pela devoção ao pai, que tentou defender até ao último instante. Apesar de ter reinado apenas por minutos, o jovem príncipe foi visto como preparado e digno para assumir o cargo. A sua morte precoce abriu caminho ao fim da monarquia constitucional portuguesa, refere ainda o Observador.
A biografia “O Rei que Não Reinou”, de Isabel Lencastre, recupera agora a memória de uma figura esquecida, mas essencial para compreender os últimos dias da monarquia em Portugal.
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