A Sé de Faro acolheu no sábado, 19 de setembro, a tomada de posse de D. Vitorino José Pereira Soares como bispo do Algarve, sucedendo a D. Manuel Quintas. Na primeira homilia, o novo responsável diocesano defendeu uma Igreja que acolha, escute e acompanhe, sublinhando que a autoridade deve ser exercida como serviço.
A Eucaristia, celebrada às 11:30, marcou o início do ministério do 34.º bispo da diocese desde a transferência da sede episcopal de Silves para Faro, em 1577. Segundo a nota de imprensa da Diocese, a cerimónia reuniu uma das maiores assembleias de que há memória na catedral, sendo também acompanhada no exterior e através de transmissão em direto.
“Na Igreja, a autoridade nunca é domínio, é serviço. O governo nunca é poder, é cuidado. A grandeza nunca consiste em ser servido, mas em servir”, afirmou D. Vitorino Soares, associando o exercício das suas funções à proximidade com as pessoas.
Uma Igreja aberta às diferentes culturas do Algarve
A diversidade da região ocupou um lugar central na intervenção do novo bispo. “É terra de encontro, terra aberta ao mar, terra onde chegam pessoas de todos os continentes, terra onde convivem diferentes culturas e credos religiosos”, declarou, considerando essa realidade um desafio pastoral e uma oportunidade missionária.
D. Vitorino Soares defendeu que o acolhimento não depende apenas do bispo ou do clero, mas de toda a comunidade. “Uma Igreja que acolhe, escuta, acompanha e evangeliza é um esforço para todo o povo de Deus”, afirmou. Sublinhou também que “o Bispo não substitui Cristo” e “não é o dono do rebanho”, apresentando o seu ministério como uma missão de serviço.
“Chego como sucessor dos Apóstolos, não para iniciar uma obra que me pertence, mas para servir a obra que é de Deus”, disse, retomando a mensagem da pagela distribuída na celebração. O seu lema, retirado do Salmo 126, acompanha-o desde a ordenação sacerdotal: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem”.
Primeiro decreto assegura continuidade nos cargos
O início do novo episcopado ficou também marcado pela leitura de um decreto que confirmou e manteve, nos termos do direito, os responsáveis pelos ofícios e funções eclesiais que dependem de nomeação episcopal. A medida é apresentada pela Diocese como uma forma de assegurar continuidade e estabilidade pastoral.
Na homilia, D. Vitorino Soares anunciou ainda a realização da Assembleia Diocesana no próximo sábado, dando continuidade ao percurso pastoral da diocese. Ao apelo para permanecerem “alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração”, acrescentou a exortação a serem “generosos no serviço aos irmãos”.
Bula, báculo e cátedra marcaram a tomada de posse
Os ritos preparatórios começaram antes da Eucaristia. Às 10:50, D. Vitorino Soares saiu do Paço Episcopal em direção à Sé, onde foi acolhido pelo deão do Cabido, cónego Mário de Sousa, que lhe apresentou os restantes membros e lhe deu a cruz a beijar. O diácono Luís Galante apresentou-lhe a relíquia de São Vicente, padroeiro da Diocese do Algarve.
Seguiu-se um momento de oração na Capela do Santíssimo Sacramento, a apresentação dos restantes membros do Colégio dos Consultores, a profissão de fé e o juramento de fidelidade. O bispo regressou depois ao Paço Episcopal, de onde partiu o cortejo litúrgico.
A celebração começou sob a presidência do arcebispo metropolitano de Évora, D. Francisco Senra Coelho. A bula apostólica do Papa Leão XIV, que formaliza a nomeação, foi lida pelo núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso. Após receber o báculo diocesano, D. Vitorino Soares foi conduzido à cátedra, símbolo da missão episcopal, num momento assinalado pelo toque dos sinos da Sé. Recebeu depois a saudação de representantes do clero, dos consagrados e dos leigos das três regiões pastorais — barlavento, centro e sotavento — e assumiu a presidência da Eucaristia.
Depois da oração da comunhão, o chanceler da Diocese, cónego Rui Barros Guerreiro, leu o auto de posse. Entre os signatários estiveram o novo bispo, D. Francisco Senra Coelho, o núncio apostólico, D. Manuel Quintas, D. Virgílio Antunes, D. Américo Aguiar, D. Rui Valério e D. José Cordeiro, além de representantes dos órgãos diocesanos.
Uma cruz peitoral oferecida pela comunidade
O Conselho Pastoral Diocesano ofereceu a D. Vitorino Soares uma cruz peitoral em prata, entregue por Cláudia Vieira e Sónia Andrez. A peça integra, a dourado, a cruz escavada que faz parte do logótipo da Diocese do Algarve.
Cláudia Vieira desejou que a oferta recordasse ao bispo a missão de “ser em tudo sacramento do amor de Deus como pastor, como guia e como pai”. Ao mostrar a peça à assembleia, D. Vitorino Soares agradeceu: “É uma cruz à minha medida.” No final, dirigiu também agradecimentos à comissão de acolhimento, ao coro e aos músicos, à Câmara Municipal de Faro, aos participantes e à sua “família de sangue”.
A celebração foi concelebrada, segundo a Diocese, pela grande maioria dos bispos portugueses e por sacerdotes do Algarve, do Porto e de outras dioceses. Um ecrã instalado no Largo da Sé permitiu o acompanhamento por quem não conseguiu entrar. A transmissão foi assegurada numa parceria entre o jornal Folha do Domingo e a Mais Algarve, com difusão também nas plataformas diocesanas e em meios como a Canção Nova, a Renascença e a Rádio Maria.
Do Porto para o Algarve
Nascido a 19 de outubro de 1960, em Luzim, Penafiel, D. Vitorino Soares foi ordenado sacerdote para a Diocese do Porto a 14 de julho de 1985. Foi formador e prefeito de seminários, capelão militar, diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral da Juventude e pároco em Paredes. Em 2019, foi nomeado bispo titular de Gisipa e auxiliar do Porto, tendo também exercido as funções de reitor do Seminário Maior do Porto e de presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios.
A nomeação para o Algarve pelo Papa Leão XIV ocorreu a 14 de julho de 2026, no dia em que completou 41 anos de ordenação sacerdotal. Na homilia, recordou D. Júlio Tavares Rebimbas, que o ordenou, e os bispos D. António Barbosa Leão e D. Florentino Andrade e Silva, ligados às dioceses do Porto e do Algarve.
Agradeceu ainda “a obra e a serenidade de D. Manuel Madureira Dias” e pediu a D. Manuel Quintas, a quem sucede, o seu “manto de sabedoria, de fortaleza e de prudência”. “Hoje não se inaugura uma nova igreja, continuamos sim uma história de graça que pertence a Deus”, afirmou.












Leia também:















