Há um Algarve de praias cheias, bares e turismo de massa, mas há também outro, feito de falésias, nevoeiro marítimo, aldeias piscatórias e areais quase vazios. Foi esse lado mais selvagem da região que o jornal britânico The Guardian encontrou ao percorrer parte do Trilho dos Pescadores, entre Lagos, Sagres, Vila do Bispo, Carrapateira e Arrifana.
A reportagem descreve o percurso como uma caminhada costeira de grande impacto visual, marcada por praias isoladas, arribas imponentes, surf, comida local e paragens em povoações onde o ritmo é bem diferente do Algarve mais turístico.
Um trilho entre Lagos e o Alentejo
O Trilho dos Pescadores integra a Rota Vicentina e estende-se por cerca de 226 quilómetros, entre Lagos e São Torpes, já no Alentejo. O percurso faz parte de uma rede maior de caminhos pedestres e cicláveis que atravessam a costa sudoeste de Portugal.
O nome não é por acaso. Originalmente, estes trilhos foram usados por pescadores para chegar a pontos de pesca inacessíveis por outros caminhos, junto às arribas e ao Atlântico.
Salema como ponto de partida
Na experiência relatada pelo The Guardian, a caminhada começa em Salema, uma aldeia piscatória no concelho de Vila do Bispo, dentro do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
O jornal descreve a localidade como um refúgio tranquilo, com casas tradicionais, ruas estreitas, restaurantes familiares e uma praia longa entre falésias claras. A comparação surge quase inevitável: Salema representa, para o autor, uma imagem do Algarve anterior à chegada do turismo de massas.
Longe do Algarve mais movimentado
A reportagem nota o contraste com Lagos, onde o grupo tinha passado a noite anterior entre turistas e bares. Poucos quilómetros depois, o cenário muda por completo.
Ao longo do percurso, o caminho segue por zonas costeiras mais isoladas, com o mar sempre presente, praias escondidas e enseadas que só atraem os caminhantes mais persistentes. O texto destaca precisamente essa sensação de estar num Algarve diferente, mais cru e menos formatado.
Falésias, praias e silêncio
Durante a caminhada até Sagres, o grupo atravessa trilhos costeiros relativamente planos, mas também zonas onde é preciso subir ou descer troços mais rochosos. A recompensa, segundo o relato, está nas praias sucessivas que aparecem ao longo do caminho.
O Guardian descreve vistas abertas sobre o Atlântico, falésias batidas pelo mar e praias quase sem ninguém. Em alguns pontos, a paisagem é apresentada como tão ampla e silenciosa que parece afastada da imagem habitual do Algarve.
Sagres e o fim do mundo
Depois de uma primeira etapa exigente, Sagres surge como paragem natural. A vila é lembrada pelo jornal pela sua ligação marítima, pelo surf e pela proximidade ao Cabo de São Vicente.
O Cabo, com o farol do século XIX colocado num promontório isolado, é descrito como um dos pontos mais marcantes do percurso. Conhecido historicamente como o “fim do mundo”, oferece uma paisagem de mar aberto, vento e arribas douradas.
Vila do Bispo e o interior seco
Depois de Sagres, a caminhada passa por uma zona mais interior, com vegetação rasteira e terreno seco, antes de chegar a Vila do Bispo. A localidade é descrita como calma, quase parada no tempo, com casas baixas, ruas empedradas e ambiente rural.
A reportagem valoriza também as paragens gastronómicas. Em Vila do Bispo, o destaque vai para um restaurante com pratos mediterrânicos, pizzas de massa fermentada e vinhos biológicos, mostrando que o trilho também se faz de pequenas descobertas fora da praia.
Bordeira impressiona pela dimensão
Um dos momentos mais fortes do percurso surge junto à Praia da Bordeira, perto da Carrapateira. O Guardian descreve o areal como longo, ventoso e muito procurado por surfistas.
A praia aparece como um ponto de viragem na caminhada: depois de quilómetros de silêncio e isolamento, há movimento, banhistas portugueses, surfistas e bares de praia. Ainda assim, a zona mantém um ambiente bastante diferente dos destinos algarvios mais cheios.
Carrapateira e Arrifana fecham a viagem
A Carrapateira surge no texto como uma pequena povoação branca, com restaurantes, cafés, bares e lojas ligadas ao surf. É ali que o grupo passa a noite antes da etapa final.
O destino final é a Arrifana, no concelho de Aljezur. A praia, encaixada entre encostas, é apresentada como mais conhecida e frequentada, mas ainda assim relativamente discreta quando comparada com outros pontos turísticos do Algarve.
Um Algarve para caminhar, não apenas para estender a toalha
A reportagem do The Guardian mostra o Algarve como destino de caminhada e natureza, não apenas como região de sol e praia. O Trilho dos Pescadores surge como uma forma de conhecer a costa com outro ritmo, passando por aldeias, falésias, praias remotas e zonas protegidas.
Para quem procura fugir às multidões, o artigo sugere que o oeste algarvio continua a guardar uma imagem mais selvagem da região. Entre Salema, Sagres, Vila do Bispo, Carrapateira e Arrifana, o Algarve aparece menos como postal turístico e mais como território para descobrir passo a passo.
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