António José Seguro escapou hoje ao bailarico, mas não aos beijos e abraços dos reformados algarvios que, num ambiente de alguma euforia, evocaram a dureza da ditadura de Salazar e da PIDE, rejeitando também “um trumpista” em Belém.
Ainda antes da chegada do candidato à Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos (ARPI) de Faro, um grupo de cantares ensaiava versos criados na véspera: “Haja alegria e paz também/Ganhe o Seguro para nosso bem/Haja alegria para toda a gente/José Seguro é o nosso presidente”.
Memórias da ditadura e apelos emocionados
À chegada à associação, fundada em 1981, onde o ex-secretário-geral do PS Pedro Nuno Santos já tinha dançado durante a campanha das últimas legislativas, Seguro ouviu os versos e dirigiu-se para uma sala onde decorria um jogo de loto, embora a idosa que escolheu para acompanhar não tenha tido muita sorte.
Foi um dos raros momentos de acalmia na ARPI, enquanto o candidato era conduzido pelo presidente da associação, André Infante, ao longo dos corredores das instalações e, entre abraços e beijinhos, ouvia relatos marcados por duras memórias dos reformados algarvios.
“Eu quero que o senhor seja presidente de todos os portugueses. Eu sofri muito com o Salazar. Passei muita fome com os meus filhos. A PIDE levou o meu pai preso. Ah, está tudo na minha memória”, relembrou uma reformada.
A confusão continuou e, se numa sala conseguiu, com tranquilidade, saudar uma doação de bens alimentares à Caritas para ajudar as vÃtimas da tempestade Kristin, noutra acabou apertado a contemplar a arte da maestrina Maria Gertrudes Pacheco, que fazia bonecos a partir de vários materiais usados.
“Depois de 82 anos, não me vai deixar cair nas mãos de um ‘trumpista’, vigarista, salazarento”, pediu efusivamente a maestrina adjetivando o adversário André Ventura e manifestando preocupação com a mobilização eleitoral no domingo face ao mau tempo.
“Todos temos de ir votar”, vincou Seguro que, apertadÃssimo por todos os lados, foi navegando com mestria ao mesmo tempo que a música tocava no salão de baile “reservado a sócios” e já convidava a um pezinho de dança.
Convites para dançar e sonhos para o futuro
“Venha dançar um funaná”, veio disparada uma associada que se intrometeu entre Seguro e os jornalistas, mas o candidato resistiu e continuou a distribuir cumprimentos e até flores pelos vários reformados.
O ex-lÃder do PS acabou mesmo por entrar no salão de baile e, já com a música parada, subiu ao palco e ouviu do presidente da associação, homem com “uma tarefa”, um pedido muito direto relacionado com “um sonho”.
“Esse sonho, vamos realizá-lo, é a construção de uma ERPI [Estrutura Residencial para Pessoas Idosas], um lar de idosos, na freguesia do Montenegro, no edifÃcio que nós já temos. Vamos apresentar um projeto e para realizar esse sonho, eu gostava que você fosse Presidente da República e viesse inaugurar o lar de idosos”, instou André Infante.
Seguro respondeu que terá “muito gosto em corresponder ao convite”, mas “não tem que ser na inauguração”.
“Na inauguração é sempre mais à s vezes as coisas formais, mas se tiver que vir, venho cá. Mas quero vir é conviver convosco, está bem? Jogar ali um bocadinho de loto, tentar aprender como é que se faz aqueles trabalhos todos fantásticos com aquelas flores, dançar também”, acrescentou.
Instado a vir dançar “o corridinho” por um apoiante entusiasta na plateia, Seguro resguardou-se quase tão bem como da dança hoje, dizendo que isso seria “muito exigente”.
“Ainda agora estive em Castro Verde e ofereceram-me uma guitarra de campaniça. Portanto, vou ter que aprender a tocar. E agora vou ter essa missão de ter que aprender a dançar o corridinho”, reconheceu.
“Venha cá que nós ensinamos. Alma algarvia”, exclamou o mesmo apoiante.
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