Cientistas portugueses descobriram que determinadas células do cancro do estômago conseguem usar a gordura do organismo como fonte adicional de energia, tornando-se mais móveis e potencialmente mais capazes de invadir os tecidos próximos. A descoberta poderá ajudar a desenvolver novas formas de travar a progressão da doença.
O estudo foi realizado por investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, conhecido como i3S.
De acordo com a SIC Notícias, a equipa identificou uma nova forma de comunicação entre as células cancerígenas e as células do tecido adiposo, que armazenam a gordura corporal.
Tumor envia mensagens às células de gordura
Segundo o i3S, as células do cancro libertam pequenas partículas conhecidas como vesículas extracelulares, que funcionam como mensagens enviadas para outras células do organismo.
Quando estas partículas chegam ao tecido adiposo, provocam uma maior libertação de ácidos gordos, moléculas ricas em energia.
As células tumorais conseguem depois adaptar-se e aproveitar essa gordura como combustível para alimentar a sua atividade.
Células tornam-se mais móveis
Os investigadores observaram que, ao terem acesso a esta fonte adicional de energia, as células cancerígenas se tornam mais móveis.
Esta alteração poderá aumentar a capacidade do tumor para invadir os tecidos vizinhos e favorecer a progressão da doença.
A descoberta mostra, assim, que o desenvolvimento do cancro não depende apenas das próprias células tumorais, mas também da relação que estas estabelecem com os tecidos que as rodeiam.
Molécula está ligada às formas mais agressivas
Durante o estudo, a equipa analisou células de cancro do estômago que apresentam na superfície uma molécula de açúcar denominada sialyl-Tn.
Esta molécula encontra-se frequentemente associada às formas mais agressivas da doença e foi identificada como um elemento central na comunicação entre o tumor e o tecido adiposo.
Daniela Freitas, investigadora do i3S e coordenadora do estudo, explicou que as vesículas libertadas pelas células cancerígenas alteram o comportamento das células de gordura.
Descoberta pode levar a novos tratamentos
Os cientistas acreditam que será possível desenvolver terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células tumorais e as células do tecido adiposo.
Ao impedir esta comunicação, poderá ser mais difícil para o tumor obter os ácidos gordos de que necessita para produzir energia e progredir.
Esta abordagem poderá complementar os tratamentos atualmente disponíveis e ajudar a controlar as formas mais agressivas do cancro do estômago.
Estudo pode ajudar a combater perda de peso
A investigação também poderá contribuir para compreender problemas frequentes entre os doentes oncológicos, como a perda acentuada de peso, massa muscular e gordura corporal.
Estas alterações podem afetar de forma significativa a qualidade de vida dos doentes e reduzir as probabilidades de sobrevivência.
Para os investigadores, compreender a forma como o tumor interage com o ambiente que o rodeia será essencial para desenvolver tratamentos mais eficazes e melhorar o acompanhamento das pessoas com cancro.
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