Perante militantes reunidos num jantar-comício em Olhão, Paulo Raimundo desafiou o PS a não viabilizar o Orçamento do Estado para 2027, considerando que um eventual apoio socialista tornaria o partido responsável pelas políticas do Governo e dispensaria o Chega de participar na aprovação do documento.
O secretário-geral do PCP fez estas declarações no sábado, 22 de agosto, durante uma iniciativa política realizada no distrito de Faro, na qual criticou as opções do executivo nas áreas da saúde, educação, habitação, salários e pensões.
“Se o PS, em nome da sua suposta responsabilidade perante o país, seja lá o que isso for, viabilizar esta política e o seu instrumento, que é o OE, não só está a ser responsável por esta política, mas também está a libertar o Chega de vir a jogo”, afirmou Paulo Raimundo.
Para o dirigente comunista, um voto favorável ou uma abstenção do PS permitiria ao Chega evitar o custo político de apoiar aquilo que classificou como “esta política desastrosa, este caminho desastroso para o povo e para o país”.
PCP aponta saúde e benefícios fiscais
Paulo Raimundo sustentou que o atual Orçamento do Estado transfere metade do orçamento do Serviço Nacional de Saúde para o setor privado e questionou se o documento para 2027 aumentará essa proporção.
O secretário-geral comunista interrogou também se o próximo Orçamento manterá ou reforçará os 1.900 milhões de euros que, segundo afirmou, são atribuídos em benefícios fiscais aos chamados residentes não habituais.
As parcerias público-privadas foram igualmente referidas no discurso.
“A dúvida é saber se as parcerias público-privadas do próximo Orçamento vão custar aos nossos bolsos mais ou menos do que os 1.500 milhões de euros que já hoje custam aos nossos bolsos”, declarou.
Paulo Raimundo considerou que estas são as principais questões que devem ser colocadas antes da discussão orçamental e advertiu para as consequências políticas de uma eventual viabilização pelo PS.
“Quem viabilizar este Orçamento do Estado passa a ter não uma atitude responsável perante o país, mas passa a ser também, e mais uma vez, responsável pelo desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, pelo ataque à escola pública, pela especulação imobiliária que nos impede de aceder à habitação, pelo ataque aos salários e às reformas”, afirmou.
Na perspetiva do líder do PCP, esse apoio representaria também cumplicidade com a “transferência dos fundos públicos para o setor privado”.
Raimundo critica anúncios feitos no Pontal
O secretário-geral comunista dirigiu ainda críticas ao discurso proferido pelo primeiro-ministro na Festa do Pontal, realizada em Quarteira, no concelho de Loulé.
Paulo Raimundo acusou Luís Montenegro de ter ido ao encontro social-democrata “multiplicar promessas, vender ilusões e repetir anúncios”.
O dirigente classificou como “conversa fiada” a afirmação do primeiro-ministro de que a aquisição de 13,7% da Redes Energéticas Nacionais pelo Estado poderá contribuir para reduzir os custos da eletricidade.
A Parpública adquiriu aquela participação à Pontegadea, empresa de investimento da família Ortega, proprietária da Zara. O negócio representa o regresso do Estado português ao capital da REN, depois da alienação da última participação pública em 2014.
Paulo Raimundo comparou esta operação com a posição que o Estado já detém na Galp.
“Os custos de eletricidade vão baixar, disse o primeiro-ministro. O que ele tem de nos explicar a todos é por que razão, estando o Estado hoje com 8% do capital da Galp, os combustíveis continuam a aumentar todas as semanas”, afirmou.
Para o líder comunista, o Governo deveria utilizar essa participação para pressionar a empresa a conter o aumento dos preços dos combustíveis.
“Aquilo que devia fazer era pegar no capital que o Estado tem na Galp e obrigar a Galp a conter o aumento dos combustíveis”, defendeu.
Preço do gás comparado com Espanha
O secretário-geral do PCP recorreu ainda ao preço do gás engarrafado para ilustrar as diferenças entre Portugal e Espanha.
Paulo Raimundo afirmou que uma botija é vendida no Algarve por valores entre 37 e 40 euros, enquanto do outro lado da fronteira custa cerca de 16 euros.
O dirigente desafiou Luís Montenegro a obrigar a Galp “a servir a economia portuguesa” e a reduzir o impacto dos preços sobre as famílias.
No jantar-comício de Olhão, o PCP procurou assim antecipar o debate sobre o Orçamento do Estado para 2027, colocando sobre o PS a responsabilidade política por uma eventual viabilização do documento apresentado pelo Governo.
A.Pinto / HDF
Leia também: Olhão marca o arranque da alternativa do PS e endurece críticas a Montenegro















