Os valores cristãos fazem parte integrante da matriz ética, cultural e histórica da sociedade portuguesa. Não pertencem a um partido político nem podem ser apropriados como ferramenta de divisão ou exclusão. A sua instrumentalização no debate público exige, por conseguinte, um escrutínio sério, responsável e esclarecedor.
O ambiente criado pela Corrida a Belém de 2026 assume-se como um dos maiores responsáveis pela centralidade do debate político nas aberturas dos jornais televisivos. Um dos seus principais protagonistas que dispensa apresentações é André Ventura.
Entre inúmeras polémicas e episódios de desinformação protagonizados pelo líder do CHEGA, bem como ao seu partido em geral, sobressai uma demagogia particularmente perigosa, inerente ao “seu modus operandi” e na suposta defesa dos valores cristãos, enfatizada veementemente através da construção de uma retórica política distorcida e de índole pejorativa. Procede-se, assim, à explicação deste populismo deletério, sustentado em três argumentos fundamentais, na minha visão crítica.
O primeiro remete para os valores comuns aos seguidores de Cristo. André Ventura e o seu partido rejeitam a imigração de pessoas oriundas de países em desenvolvimento, bem como qualquer hipótese de integração de pessoas recém-chegadas, mesmo quando estas se encontram em situação legal. Esta posição é frequentemente justificada sob o pretexto da proteção moral, tradicional e cristã, bem como dos chamados “portugueses de bem”. Contudo, esta visão moral, marcada por um viés de “nós contra eles”, afasta-se claramente da doutrina cristã. Recordem-se os mandamentos “Amar a Deus sobre todas as coisas” e “Não levantar falso testemunho”, bem como os episódios bíblicos de misericórdia e acolhimento protagonizados por Jesus em terras estrangeiras como Samaria, Decápolis e Caná. A filosofia cristã nunca se rendeu ao ódio, ao isolamento ou à exclusão de quem necessita. Pelo contrário, assenta no acolhimento, na integração, no apoio e no respeito pela dignidade humana.
Em segundo lugar, importa abordar o discurso predominantemente emocional e desrespeitoso que caracteriza grande parte da intervenção pública de André Ventura. É recorrente observar um estilo discursivo efusivo, marcado pela ausência de respeito pelos adversários políticos e, muitas vezes, pelos próprios mediadores do debate democrático. Este recurso sistemático ao ataque pessoal pouco substantivo é frequentemente interpretado por eleitores menos atentos como sinal de autenticidade, coragem ou preocupação genuína com os problemas do país. No entanto, a tradição cristã sempre privilegiou o debate aberto, firme e respeitador, centrado nas ideias e não na desqualificação das pessoas.
A título de exemplo, recorde-se o debate da segunda volta das eleições presidenciais de 1986 entre Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares, paradigma de elevação democrática e respeito institucional.
Por fim, destaca-se a invocação recorrente e tripartida de Deus, Pátria e Família por parte do CHEGA, com o objetivo de conferir uma aparência de legitimidade axiológica às suas posições. Essa invocação é, porém, fragmentada, descontextualizada e claramente oportunista. O verdadeiro democrata-cristão assume o seu compromisso ético e religioso de forma constante, no quotidiano, em todas as circunstâncias e nas suas ações. A democracia cristã portuguesa honra essa tradição através da promoção da dignidade humana, da solidariedade e da justiça social, colocando a família no centro da sua ação política, princípios que não se compadecem com discursos hostis nem com simplificações morais redutoras.
A minha posição releva a democracia cristã portuguesa e a sua respetiva expressão histórica e contemporânea. A sua identidade assenta na aplicação coerente dos valores cristãos às políticas públicas, às opções legislativas, à prática institucional e ao discurso político, recusando qualquer beneplácito a fundamentos falaciosos que promovam clivagens sociais, morais ou culturais. Num tempo marcado pelo ruído, pela simplificação e pelo aproveitamento emocional, a democracia cristã afirma-se como a casa política de quem entende que os valores cristãos não se gritam nem se exploram. Na verdade, vivem-se, praticam-se e traduzem-se em políticas públicas responsáveis, humanas e justas.
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