A história oferece, por vezes, soluções que a política insiste em ignorar. A África do Sul, marcada por décadas de apartheid, escolheu a convivência democrática em vez da fragmentação. Não se dividiram em dois países — um para brancos, outro para negros. Optaram por um só Estado, onde cada cidadão tem direito a um voto. Por que razão, então, não se poderia imaginar solução semelhante para o conflito entre israelitas e palestinianos?
Desde 1947, a proposta de dois Estados — um israelita, outro palestiniano — tem sido apresentada como a única solução viável. Contudo, mais de sete décadas depois, essa promessa permanece incumprida. A realidade no terreno contradiz o ideal: ocupações, muros, bloqueios, colonatos e uma geografia fragmentada tornaram a viabilidade de dois Estados quase uma ficção cartográfica.
A proposta de dois Estados, embora diplomática, tornou-se um mantra estagnado. Repetida em cimeiras, ignorada na prática. E, no fundo, talvez não seja a mais justa.

Jurista
Tal como na África do Sul, a paz no Médio Oriente exigirá coragem política, reconciliação histórica e uma redefinição radical do que significa 'pertencer'
Durante o regime de apartheid, a África do Sul viveu uma segregação institucionalizada. Mas com o fim desse regime, não se optou por expulsar os colonos, nem por criar um Estado paralelo para os negros. Escolheu-se a convivência. Nelson Mandela e Frederik de Klerk, inimigos históricos, partilharam o Prémio Nobel da Paz e construíram uma democracia multirracial. A reconciliação foi institucionalizada, não apenas proclamada.
Durante séculos, sob o Império Otomano, judeus, cristãos e muçulmanos viveram lado a lado em Jerusalém e noutras cidades. A convivência não era perfeita, mas era possível. Por que não recuperar esse espírito?
A proposta de um Estado único, laico e democrático, onde israelitas e palestinianos tenham direitos iguais, é vista por muitos como utópica. Mas talvez seja apenas radicalmente justa. Um Estado onde cada homem e mulher — judeu, muçulmano, cristão, ateu — tenha direito a um voto. Onde a cidadania não seja definida por etnia ou religião, mas por pertença comum a uma terra partilhada.
A resistência a essa ideia é profunda. Israel teme perder o caráter judaico do Estado. Os palestinianos receiam ser eternamente marginalizados. Ambos carregam memórias de violência, expulsão e humilhação. Mas a alternativa — a perpetuação do conflito, a segregação, o apartheid territorial — é insustentável.
Tal como na África do Sul, a paz no Médio Oriente exigirá coragem política, reconciliação histórica e uma redefinição radical do que significa “pertencer”. Talvez não seja possível hoje. Mas talvez seja inevitável amanhã.
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