Há uma profissão em Portugal que continua escandalosamente sem reconhecimento oficial.
Não tem sindicato, não paga quotas, dispensa licenciatura e nunca conheceu o desemprego. Basta um café, uma televisão ligada e a convicção inabalável de que os outros são incompetentes.
Refiro-me, naturalmente, ao treinador de bancada.
É um profissional singular. Nunca dirigiu um treino, mas sabe exatamente quando devia ter entrado o extremo, saído o médio, recuado o lateral e aquecido o suplente que nem sequer estava convocado.

Jurista
Se os clubes fossem geridos exclusivamente por treinadores de bancada, um jogador podia ser contratado ao pequeno-almoço, vendido ao almoço e readquirido antes do jantar
Tem uma vantagem impossível de igualar: trabalha sempre com o conhecimento do resultado.
Imagine-se um meteorologista que previsse o tempo de ontem ou um médico que anunciasse o diagnóstico depois da autópsia.
Seriam motivo de chacota.
No futebol, seriam convidados para comentar.
A velocidade com que um treinador de bancada fabrica heróis e vilões continua a ser um dos grandes espetáculos nacionais.
Num jogo, o avançado marca dois golos. É um fenómeno.
No seguinte falha um penálti. Nunca teve categoria.
O treinador soma três vitórias consecutivas. É um estratega brilhante.
Empata dois jogos. Sempre foi um teimoso.
E aí surge o advérbio favorito do treinador de bancada: sempre.
A palavra que permite descobrir padrões infalíveis depois de os acontecimentos já terem acontecido.
O futebol é talvez o único lugar onde a memória tem VAR: revê o lance, altera a decisão e garante que sempre decidiu assim.
Um adepto raramente se lembra do que pensava antes do jogo. Recorda apenas aquilo que passou a pensar depois do resultado.
A memória não mente; apenas faz algumas substituições.
Sai a dúvida.
Entra a certeza.
Entra também o inevitável “eu bem dizia”.
Esta expressão merece estudo científico. Sobrevive a todas as derrotas, adapta-se a todas as vitórias e aparece sempre quando já ninguém consegue demonstrar o contrário.
Há igualmente uma regra absoluta sobre substituições: nenhuma está certa.
Se resulta, devia ter sido feita mais cedo.
Se falha, nunca devia ter acontecido.
Qualquer decisão confirma que a decisão correta era outra.
O treinador verdadeiro decide antes dos factos.
O treinador de bancada decide depois deles.
E, convenhamos, é um método com uma taxa de sucesso impressionante.
Mas talvez o treinador de bancada seja apenas uma versão ampliada de todos nós.
Também na política, na economia, nas empresas ou na vida quotidiana abundam especialistas em prever o passado. Depois de tudo acontecer, aparecem sempre aqueles que sabiam exatamente o que ia acontecer.
O fracasso transforma antigos admirados em incompetentes.
O sucesso transforma antigos desconhecidos em génios.
O resultado não muda apenas o marcador.
Muda a história que contamos sobre o marcador.
Se os clubes fossem geridos exclusivamente por treinadores de bancada, um jogador podia ser contratado ao pequeno-almoço, vendido ao almoço e readquirido antes do jantar.
O treinador seria despedido ao intervalo e recontratado depois da reviravolta.
O guarda-redes passaria de herói nacional a problema estrutural entre o apito inicial e a conferência de imprensa.
Felizmente, os clubes não funcionam assim.
Caso contrário, haveria mais decisões do que minutos de jogo.
Quanto aos treinadores de bancada, esses continuarão invencíveis.
Perdem todos os jogos, mas ganham sempre a discussão.
Porque existe um campeonato mais antigo do que qualquer competição oficial: o campeonato de quem tem razão depois de tudo acontecer.
Tem milhões de campeões.
E uma regra de ouro.
Nunca erraram.
A realidade é que, de vez em quando, teve o mau gosto de lhes estragar as previsões.
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