Muito se tem falado sobre a titularidade de Cristiano Ronaldo no Mundial que está a decorrer na América do Norte. Por um lado, os defensores do capitão português consideram que este, enquanto estiver fisicamente apto e disponível para a seleção, deve ser sempre titular. Por outro lado, aqueles que, agradecendo o incrível contributo que Ronaldo deu à seleção e ao país, acham que existem jogadores com mais condições para jogar.
Não irei alimentar essa discussão, apesar de estar mais próximo dos segundos, mas esta síndrome, caracterizada pelo medo de arriscar e daquilo que é diferente, é claramente, e infelizmente, observada na política portuguesa.
Vejamos o caso da Saúde. Em Portugal existe apenas uma Unidade Hospitalar gerida em parceria público-privada, o Hospital de Cascais. Em 2021 não foram renovadas 3 parcerias existentes, Braga, Vila Franca de Xira e Loures, mesmo com ganhos de eficiência no período de gestão privada. Mas esses dados podem não indicar uma maior satisfação dos utentes dessas unidades? É verdade, mas o estudo “Avaliação da Qualidade Apercebida e Satisfação dos Utentes do Hospital de Braga”, referente ao ano de 2018, indicava uma satisfação de 82,9 pontos – Muito Bom (a parceria começou em 2011).
Se existe satisfação dos utentes e o custo é menor para o bolso dos portugueses, por que razão não existem mais hospitais público-privados?
Por um lado, por fanatismo ideológico, em que grande parte da esquerda portuguesa e europeia odeia os privados e o lucro, mesmo que prestem um melhor serviço aos utentes. Voltando ao caso Ronaldo, muitos fãs do capitão da seleção acreditam que este deve ser sempre titular mesmo que não seja o melhor para o coletivo, todos nos lembramos do hat-trick de Gonçalo Ramos contra a Suíça em 2022, no primeiro jogo desse torneio em que CR7 não foi titular. No fundo porque é preferível manter a crença e o fanatismo do que fazer o melhor para o coletivo.
Por outro lado, por comodismo e medo de arriscar. Cada vez que se fala sobre mais PPP´s na saúde, aparece o grande papão da privatização do SNS. Então a razão é a mesma da anterior, fanatismo ideológico? Não, nestes casos é ainda pior, porque muitas vezes os decisores sabem que é o melhor para os utentes e para o bolso dos portugueses, mas têm medo de arriscar em medidas que são impopulares no momento por puro taticismo eleitoral.
Será que Roberto Martínez acredita mesmo que Ronaldo é a melhor solução para o ataque da Seleção ou existem razões externas que influenciam a decisão?
Mas a saúde não é caso único. Todas as verdadeiras mudanças que se tentam fazer neste país esbarram nos velhos do Restelo.
A reforma laboral é a mais recente e paradigmática. O Governo tentou introduzir mudanças ao Código de Trabalho com o objetivo de flexibilizar o mercado laboral. Grande parte da opinião pública diabolizou a proposta afirmando que não era necessária por estarmos quase em pleno emprego. É verdade que o desemprego em Portugal ronda os 6%, valor relativamente baixo, mas o desemprego jovem é de cerca de 18%, acima da média europeia. Os nossos jovens entre os 16 e os 24 anos, os da minha geração, ganham em média 914 euros líquidos por mês o que equivale a menos 30% do salário médio nacional (Dados da fundação Belmiro de Azevedo). Mas, mais uma vez, por conveniência eleitoral uma reforma estrutural foi metida na gaveta.
Outro caso preocupante é o da Segurança Social. Segundo previsões da Comissão Europeia, quem se reformar em 2050 terá direito a apenas 39% do seu último salário. Qualquer reforma que seja proposta com o objetivo de introduzir um pilar privado ao sistema de pensões é catalogada imediatamente como neoliberal e com o objetivo de privatizar a segurança social.
A síndrome Ronaldo é, infelizmente, uma realidade no panorama político português. Como no caso da seleção, os mais prejudicados são os jovens. Talvez devêssemos repensar os Martínez da vida, mas ao contrário do selecionador, os outros têm mesmo um grande impacto nas nossas vidas.
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