O que faz com que um povo, que um dia gritou nas ruas que, unido, jamais seria vencido, tenha, entretanto, passado a votar crescentemente em partidos cuja ideologia professada antes rejeitava e combatia?
Motivos vários existirão para que tal aconteça, dir-se-á.
E entre eles não se poderá encontrar o de promessas que lhe foram feitas, em particular por auto denominados socialistas e sociais-democratas, detentores do poder pós 25 de Abril, que não só não as cumpriram (o que poderia ter acontecido, apenas, por simples incapacidades reveladas), mas, deliberadamente, as traíram, rendidos a todo um neoliberalismo económico, à financeirização da economia (não produtiva, que mata, como denunciava um Francisco, que Papa foi), à privatização de tudo o que património coletivo fosse, mesmo que respeitando a setores estratégicos do país, como uma rede de distribuição de eletricidade, ao endeusamento do «Mercado», ao culto do «Eu» e menosprezo de quanto pudesse ser expressão de solidariedade e partilha?

Jurista
Onde passaram a estar os políticos, entendidos como aqueles que se preocupam, verdadeiramente, com a boa e justa governação da 'polis', para darem lugar, cada vez mais, a 'profissionais da política'?
Onde está um prometido SNS, uma Justiça, um parque habitacional, uma rede de creches e lares da 3.ª idade, dignos desse nome, uma segurança no emprego e ordenados condignos, uma sociedade mais justa e fraterna, em vez de urgências fechadas, sentenças que tardam, custos de aquisição ou simples arrendamento de casas que não se conseguem suportar, mães que desesperam para encontrar onde deixar os filhos enquanto vão trabalhar, idosos depositados em clandestinos «armazéns» servindo de frias e desumanas antecâmaras de morte, empregos precários e mal remunerados, um fosso cada vez maior entre ricos e pobres?
Onde passaram a estar os políticos, entendidos como aqueles que se preocupam, verdadeiramente, com a boa e justa governação da «polis», para darem lugar, cada vez mais, a «profissionais da política», fazendo desta um simples meio de promoção pessoal, de particulares negócios, autênticos «vendilhões do templo», num país mais parecendo uma federação de «amigalhaços protegendo-se e condecorando-se uns aos outros», onde as instituições, da Justiça à Assembleia da República, perdem prestígio, onde, diariamente, um novo «caso» ou «casinho» surge a dominar o espaço mediático e, entretidos com os mesmos, não se planeia, mas tenta-se desenrascar à última da hora hora, um país que, preso por arames, treme à mais pequena vicissitude surgida, como agora se viu com o apagão da eletricidade, não havendo papel higiénico que, depois, lhe resista?
Não se compreenderá, assim, toda uma frustração sentida por parte desse mesmo povo e que este acabe, seja por mero protesto, seja por equivocada sedução, por entregar o seu voto a tais partidos explorando essa mesma frustração?
Onde está a autocrítica, o arrepiar de caminho de quem o traiu, em vez de, cinicamente, passar o tempo a denunciar o oportunismo e populismo dos que, agora, de todo um descontentamento existente procuram obscuros dividendos tirar?
Post scriptum:
Que chatice o «apagão» não ter sido provocado por um ciberataque do Putin!
Tinha-se mais uma razão para, com os ucranianos a darem o corpo ao manifesto, continuar a alimentar toda uma guerra visando enfraquecer e fragmentar a Rússia!
Assim como mais se poderia justificar, ainda, os gastos em armamento, em vez de na saúde, na justiça, na habitação, etc., para que quando os russos cheguem, visando, gulosamente, apoderar-se dos nossos Pastéis de Belém, o pessoal possa correr aos supermercados e aí se abastecer de metralhadoras, bazucas, lança granadas, etc., para os russos enfrentar, comandado pelo nosso grande Major-General Isidro, de megafone na mão gritando: «Tugas, às armas, contra os russos marchar, marchar!» e registo devido da proeza pelo nosso não menos credenciado estoriador Milhazes!
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