O país é um caso notável de talento desperdiçado — um prodígio de génio inofensivo, sabedoria estéril e glória de gabinete.
Em cada esquina uma sumidade, em cada café um estratega, em cada programa da manhã um filósofo.
Nas televisões, de manhã à noite, especialistas sem fim desfilam a expor o seu superior saber, dissertando com o mesmo à vontade sobre se nasceu primeiro o ovo ou a galinha, como sobre o que diferencia um míssil de um supositório.

Jurista
Como compreender então, com tanta inteligência proclamada, tanto diploma emoldurado, tanta pose pensativa em frente à câmara de televisão e medalhas ao peito penduradas, que este país continue, como um ébrio, a tropeçar em si mesmo?
Jovens jornalistas, saídos de universidades com diplomas plastificados e tropeçando entre vírgulas e pontos finais, são capazes, até, numa demonstração de quanto a ignorância deixou de ser um obstáculo e passou a ser um requisito para a certeza, de debater e rebater com os próprios especialistas.
Não faltam os Tós Zés, os Zé Manéis e outros afins, qual espécie endémica que floresce nos corredores do poder, nas empresas públicas e em todos os lugares onde se decide muito e se responde por pouco.
Medalhas, condecorações e comendas são distribuídas como rissóis num cocktail institucional, elevando os portadores de tais saber e talento ao pedestal da glória eterna.
Como compreender então, com tanta inteligência proclamada, tanto diploma emoldurado, tanta pose pensativa em frente à câmara de televisão e medalhas ao peito penduradas, que este país continue, como um ébrio, a tropeçar em si mesmo?
Talvez a resposta esteja entre o supositório e o míssil, numa espécie de paradoxo que só a nossa própria história conseguirá explicar.
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