As sociedades não são estruturas imutáveis — estão, antes, em constante transformação. O que ontem era proibido, hoje pode ser aceite; e, inversamente, o que era comum pode passar a ser rejeitado.
Por vezes, essas mudanças ocorrem de forma lenta e gradual, permitindo que as absorvamos e a elas nos adaptemos sem grandes sobressaltos. Noutras ocasiões, porém, elas surgirão de modo abrupto e abrangente, deixando-nos desorientados — como num cruzamento, sem saber que caminho seguir, sem certezas sobre o que hoje se deve considerar certo ou errado, aceitável ou inaceitável.
Não será será um destes momentos que estaremos a viver?
Até há relativamente pouco tempo, o nosso mundo era o da aldeia, da vila ou do bairro. Conhecíamos os vizinhos, partilhávamos códigos comuns, sabíamos o que era socialmente aceite e o que não era. O sentimento de pertença era natural — uma consequência da proximidade e da repetição.

Jurista
Navegar neste mundo em constante mutação não será tarefa fácil. Mas será justamente nos momentos de maior dificuldade que o ser humano, enquanto animal social, terá de reencontrar-se com a sua essência
De repente, com a televisão e, sobretudo, com a internet, esse mundo expandiu-se sem aviso prévio. Outras culturas, valores, modos de pensar e de viver começaram a entrar pelas nossas casas adentro, desafiando as referências que dávamos como certas. Depois, como se não bastasse, quando procuramos marcos de conduta nas designadas elites políticas, em particular governativas, o que nelas, cada vez mais, vamos encontrando, é a falta de ética, a palavra sem valor, afirmando-se e defendendo hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, a duplicidade de critérios em juízos de valor sobre fenómenos idênticos, o embuste e a mentira. Não será, pois, de estranhar que nos sintamos confusos, sem saber — como referimos — que rumo seguir, o que aceitar ou rejeitar.
Essa incerteza, compreensível, pode gerar insegurança. E, como bem sabemos, a insegurança é terreno fértil para o surgimento de conflitos — entre indivíduos, entre grupos, entre países.
Navegar neste mundo em constante mutação não será tarefa fácil. Mas será justamente nos momentos de maior dificuldade que o ser humano, enquanto animal social, terá de reencontrar-se com a sua essência: a da partilha, da empatia, da solidariedade. Só assim poderemos sobreviver — e, mais do que isso, continuar a progredir como civilização.
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