Há 31 anos que setembro significa, para mim, regressar a uma sala de aula. Mudam os alunos, mudam os programas, mudam as tecnologias e, felizmente, também muda a escola. Mas este ano letivo começa com uma pergunta que há poucos anos nem sequer faria sentido colocar: quanto do trabalho que os nossos alunos deveriam fazer com a cabeça estão já a entregar a uma máquina?
Escrevi dois livros sobre ChatGPT, um para professores e outro para estudantes. Uso inteligência artificial diariamente, na escola e profissionalmente. Seria, portanto, estranho descobrir agora uma vocação para inimigo da IA. Não tenho nenhuma. Acho que os nossos alunos devem aprender a utilizá-la e acredito que saber fazê-lo será uma competência importante no seu futuro.
A minha preocupação é outra: estaremos a ensinar-lhes a usar estas ferramentas depois de aprenderem a pensar ou estamos a entregar-lhes ferramentas capazes de pensar por eles antes de algumas competências básicas estarem consolidadas?
Os resultados mais recentes do PISA tornam a pergunta particularmente oportuna neste início de ano letivo. Portugal perdeu, em três anos, 12 pontos a Matemática e 15 a Leitura. É preocupante porque já tínhamos demonstrado que conseguíamos fazer melhor. Durante vários anos melhorámos os resultados e esse progresso foi reconhecido internacionalmente. Agora voltámos a perder terreno.
Há outro dado interessante. Na resolução de problemas computacionais, uma nova área avaliada pelo PISA, Portugal obteve 501 pontos, praticamente em linha com a média da OCDE, de 500. A prova não avalia simplesmente se os jovens sabem mexer num computador. Envolve resolução de problemas, modelação, programação, análise de dados e utilização de ferramentas computacionais.
Seria intelectualmente desonesto pegar nestes números e concluir que a tecnologia ou a inteligência artificial são responsáveis pela descida portuguesa. O PISA não demonstra isso. Mas os resultados justificam uma discussão que pais e professores já não podem adiar.
Ao longo de três décadas de ensino fui assistindo a muitas mudanças nos alunos. Não compro a ideia fácil de que os jovens de hoje são menos inteligentes ou menos capazes. Também não tenho saudades suficientes da escola de há 30 anos para dizer “no meu tempo é que era”. Fazíamos algumas coisas melhor e outras bastante pior.
Há, no entanto, uma mudança que me preocupa: noto cada vez mais dificuldade em permanecer perante um problema quando a solução não aparece rapidamente. Um exercício não resulta à primeira tentativa e surge a frustração. Um texto exige uma segunda leitura e perde-se a paciência. Uma pergunta demora demasiado tempo a responder e a tentação é procurar imediatamente a solução.
A tecnologia habituou-nos a reduzir o tempo entre uma dúvida e uma resposta. E não são apenas os jovens. Nós fazemos exatamente o mesmo. Se não sabemos uma coisa, vamos ao Google. Se não sabemos chegar a algum lado, abrimos o GPS. Se precisamos de resumir um documento ou organizar algumas ideias, recorremos à inteligência artificial. Eu faço-o todos os dias.
Mas há uma diferença importante. Eu já sabia escrever antes do ChatGPT. Já fazia contas antes de ter uma calculadora permanentemente disponível. Já procurava informação antes do Google. Quando utilizo estas ferramentas, estou muitas vezes a acelerar uma competência que já possuo.
Uma criança ou um adolescente pode estar ainda a construí-la.
O exemplo mais simples continua a ser a velha calculadora. Uma criança que está a aprender a multiplicar pode escrever 7 × 8 e obter 56. A resposta está absolutamente certa, mas o objetivo daquela aula não era descobrir que o resultado era 56. Era aprender a chegar lá.
Obter a resposta e aprender a chegar à resposta não são a mesma coisa.
Com a inteligência artificial, esta distinção torna-se muito mais séria. A calculadora fazia uma operação. Uma IA pode interpretar a pergunta, procurar e organizar informação, construir argumentos, escrever o texto, revê-lo, resumi-lo e apresentar uma conclusão. Para quem domina estas competências, é uma ferramenta extraordinária. Para quem ainda as está a adquirir, pode tornar-se um atalho demasiado tentador.
Se a ferramenta amplia uma competência que já existe, fantástico. Se substitui uma competência que ainda não foi construída, podemos estar apenas a alugá-la.
É por isso que acompanho com interesse o que alguns países estão a fazer. A Noruega decidiu restringir fortemente a utilização autónoma de inteligência artificial nos primeiros anos de escolaridade, procurando proteger a aquisição das competências fundamentais. Na Dinamarca, entre as medidas adotadas para responder ao uso indevido da IA estão a defesa oral de determinados trabalhos escritos e uma maior realização de trabalhos em condições presenciais e controladas.
Esta última ideia agrada-me particularmente porque vai diretamente a um problema que os professores conhecem bem. Um aluno entrega um trabalho excelente. Está bem escrito, bem estruturado, praticamente sem erros. Em vez de perdermos demasiado tempo a tentar descobrir se foi escrito pelo aluno, pelo ChatGPT ou pelos dois, há uma solução bastante antiga: conversar com ele.
“Explica-me esta conclusão.”
E, de repente, percebemos muita coisa.
Peça-se ao aluno que defenda o argumento, explique um conceito, identifique uma fragilidade no próprio trabalho ou responda a uma objeção. Pode ter usado IA, Google, livros, vídeos ou ter pedido ajuda em casa. Mas naquele momento é ele que tem de compreender aquilo que entregou.
Talvez a chegada da inteligência artificial nos obrigue, finalmente, a repensar algumas formas de avaliação. Se uma máquina consegue realizar em segundos um trabalho que continuamos a mandar um aluno fazer em casa, o problema pode não estar apenas na máquina. Pode estar também no trabalho que continuamos a pedir.
Não vejo grande futuro numa escola transformada numa esquadra, com professores permanentemente à procura de provas de utilização do ChatGPT. Vejo muito mais interesse numa escola que valorize o processo, a argumentação, a oralidade, a discussão, a resolução de problemas e a capacidade de justificar uma resposta. Menos preocupação exclusiva com aquilo que o aluno entrega e mais atenção àquilo que efetivamente consegue defender.
Mas seria cómodo colocar toda a responsabilidade nos professores. Esta discussão também entra pela porta de casa.
Agora que começa um novo ano letivo, os pais vão ouvir muitas vezes “não consigo fazer isto”. A nossa reação natural é ajudar. E ainda bem. Mas ajudar nem sempre significa retirar imediatamente a dificuldade.
Às vezes, antes de dar a resposta, basta perguntar: “O que já tentaste?” Ou simplesmente: “E tu, o que achas?”
Nem toda a frustração deve ser eliminada. Há uma capacidade que também precisa de ser treinada e sobre a qual falamos pouco: a capacidade de não saber… ainda. De experimentar uma solução, perceber que está errada e tentar outra. De ler novamente. De mudar de opinião. De chegar à resposta depois de algum esforço.
É assim que se aprende a pensar.
E aqui encontramos uma coisa que o PISA dificilmente conseguirá medir. Pode avaliar Matemática, Leitura, Ciências e diferentes formas de resolução de problemas. Não consegue medir quanto tempo demos a um aluno para estar errado antes de lhe mostrar a solução. Não mede quantas vezes um professor ou um pai perguntou “porquê?” quando seria muito mais rápido dar simplesmente a resposta.
Também não mede se ensinámos os jovens a desconfiar de uma resposta aparentemente perfeita, a procurar uma fonte, a ouvir um argumento contrário ou a admitir que estavam errados.
Neste início de aulas, os nossos filhos regressam à escola com algo que nenhuma geração anterior teve. Não têm apenas acesso quase instantâneo à informação. Têm acesso a máquinas capazes de trabalhar essa informação por eles: escrever, traduzir, programar, calcular, resumir, analisar e argumentar.
Não devemos ter medo disso. Devemos ensiná-los a aproveitar essa extraordinária vantagem.
Mas sem confundir rapidez com aprendizagem.
Durante anos perguntámos como poderíamos utilizar a tecnologia para ajudar os alunos a aprender. Com a inteligência artificial, talvez seja necessário acrescentar uma pergunta anterior: o que precisam eles de aprender antes de entregarem determinadas tarefas à tecnologia?
Neste setembro, pais e professores voltarão a preocupar-se com testes, trabalhos, horários, notas e passagens de ano. É normal.
Eu acrescentaria apenas mais uma preocupação à lista: que os nossos filhos terminem o ano a saber mais, claro, mas sobretudo a precisar um pouco menos que alguém, ou alguma coisa, pense por eles.
Porque respostas têm hoje milhões à distância de um clique.
Pensar continua a dar trabalho. E ainda bem.
Sobre o autor:
- Professor de Informática no Agrupamento de Escolas João de Deus
- Autor dos livros “ChatGPT para Professores” e “ChatGPT para Estudantes“
- Autor do website institucional www.aejdfaro.pt e responsável pela comunicação externa do Agrupamento.
- 30 anos de experiência como docente no Ensino Secundário
- 5 anos de experiência como docente no Ensino Superior
- Mais de 1000 horas de formação de adultos
- Fundador e Gerente da Webfarus Marketing Digital (www.webfarus.com)
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