A música é uma das mais profundas e antigas manifestações da condição humana. A sua importância da música reside na capacidade de provocar emoções, criar identidade e fortalecer laços comunitários. Ela está presente nos rituais, nas celebrações, no quotidiano e nos grandes momentos históricos, constituindo-se como um património imaterial que molda culturas e gerações.
É por isso que a preservação dos arquivos musicais e dos instrumentos históricos assume um papel central na preservação da nossa herança cultural. Sem a sua salvaguarda, perde-se não apenas o objeto físico, mas também o conhecimento, a técnica, a intencionalidade artística e a memória das comunidades que lhe deram origem. A musealização, associada à preservação e ao restauro, é, não só um gesto de responsabilidade e respeito para com o passado, mas também um investimento na formação das gerações futuras, que encontrarão nestes testemunhos uma fonte de estudo, de descoberta e de inspiração para novas composições ou novos instrumentos.
Neste contexto, a criação de um Museu Nacional da Música tornou-se uma necessidade que remonta ao reinado de D. Luis I. Esta ideia foi consecutivamente adiada até 2023, data em que encerrou as suas portas, a instalação provisória que funcionava na estação do Metropolitano de Lisboa no Alto dos Moinhos, para preparar a sua instalação definitiva no Real Edifício de Mafra, onde ontem reabriu portas no dia 22 de novembro, com grande magnanimidade.
Um museu desta natureza possibilitou reunir num só espaço um património que se encontrava disperso, passando de 250 para mais de 500 peças e instrumentos em exposição, muitos deles únicos no mundo e considerados tesouros nacionais, como é o caso do violoncelo Stradivarius Chevillard, do Rei D. Luis I, do Cravo Antunes ou do Cravo de Pascal Taskin, construído a pedido do Rei Luis XVI. Adicionalmente, apresenta arquivos documentais de grande relevância, dos quais saliento peças de composição de autores como Fernando Lopes Graça, José Viana da Mota; e arquivos iconográficos, merecendo destaque as telas de José Malhoa, que consagram Beethoven e a Música.
No entanto, o impacto do novo museu não se limita à preservação e à exposição. A sua abertura representa uma oportunidade para dinamizar a vida cultural, não apenas de Mafra, mas de toda a Área Metropolitana de Lisboa e do país. Um museu deste tipo pode tornar-se um centro ativo de produção de conhecimento, abrindo portas à investigação, através da instalação, já em curso, em Mafra, do Polo de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa; ao restauro especializado, com a ampliação do número de empresas de restauro; a residências artísticas e à formação musical, através das escolas de música, dos conservatórios e do Centro Europeu de Música, instalado em Mafra. Complementarmente, de forma ainda mais profunda, poderá reforçar o sentimento de pertença e de orgulho nas raízes musicais portuguesas, promovendo o diálogo entre tradição e contemporaneidade.
É neste contexto que a abertura do novo e definitivo Museu Nacional da Música, em Mafra, ganha um significado especial. Integrado no conjunto do Real Edifício de Mafra, Património Mundial da UNESCO, um espaço profundamente marcado pela história da música portuguesa – basta lembrar o conjunto único no mundo dos seis órgãos da Basílica, dos dois carrilhões, do acervo documental musical na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra – o novo museu representa um salto qualitativo na forma como Portugal cuida e valoriza o seu património artístico e cultural. Esta é, ainda, uma oportunidade única para criar sinergias, valorizando o acervo do Arquivo Nacional do Som, cujo novo edifício se encontra em fase de construção na Vila de Mafra, para fidelizar públicos e reforçar a atratividade destas coleções para visitantes e investigadores.
Num cenário global marcado por rápidas transformações, a música continua a ser um dos poucos elementos verdadeiramente universais, capaz de criar pontes e promover o entendimento entre os povos. Por isso, celebrar a abertura do novo Museu Nacional da Música, em Mafra, é, não só, celebrar a valorização do legado musical português no mundo, como celebrar a música enquanto força criadora, guardiã de memórias e instrumento de união. É preservar aquilo que nos torna verdadeiramente humanos.
Parabéns a todos os que tornaram possível este projeto, desde o Município de Mafra, Património Cultural, I.P., projetistas, empreiteiros, fiscalização, técnicos e mecenas. Uma palavra especial para o diretor do museu, professor doutor Edward Aires de Abreu, que foi pedra angular durante a fase de projeto, obra e musealização, assim como toda a equipa que o acompanha. Este é um projeto que passou por 6 governos nos últimos 12 anos, desde Pedro Passos Coelho e Jorge Barreto Xavier, passando por António Costa, Luís Filipe Castro Mendes e Graça Fonseca, Luís Montenegro, Dalila Rodrigues e Margarida Balseiro Lopes. Merecem todos um grande elogio por terem sabido interpretar a importância deste projeto para a Cultura e especialmente para a música portuguesa.
Devemos reconhecer que este é um excelente exemplo de aplicação dos fundos comunitários, neste caso do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), sem os quais este projeto, dificilmente, veria a luz do dia. Espero que, com estes bons exemplos, a União Europeia (UE) continue a apostar na Cultura como elemento de união e como um investimento fundamental para consolidar o projeto europeu. A apresentação, recente, da Bússola Cultural Europeia; e o reforço financeiro substancial na proposta da Comissão Europeia para o programa AgoraEU, no contexto do próximo Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034, demonstram desde já um sinal positivo, marcando uma nova etapa na forma como a UE olha para a Cultura.
Esta é a hora de celebrar.
Viva a Música e o seu novo Museu Nacional!
Viva Mafra, Viva Portugal e Viva a União Europeia!
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