Recentemente, ao comprar um menu no Burger King, recebi uma toalha de praia. Uma daquelas promoções banais que quase ninguém valoriza acabou por despoletar em mim uma enxurrada de memórias — e, com elas, um exercício de autoanálise socioeconómica. Tudo a partir de uma verdade aparentemente simples: em 46 anos de vida, nunca comprei uma toalha de praia.
Recordo, com nitidez, cada toalha que me acompanhou em contextos balneares. As primeiras não eram mais do que toalhas de banho recicladas, desde que não fossem brancas — e assim os anos 80 disfarçavam a ausência de um “kit de praia” apropriado. A primeira toalha “a sério” só chegou em meados dos anos 90, durante umas férias em Quarteira com a malta do Machado — o meu grupo de amigos, uma mistura de vila, Mealhas e bairro, para quem entende as geografias sociais de São Brás de Alportel. Foi lá que vi, pendurada num primeiro andar, uma toalha nova, grande, luminosa. Pedi ao meu amigo Gildo (hoje pastor evangélico) que subisse às minhas cavalitas. E assim, nesse gesto que foi ao mesmo tempo ingenuidade, rebeldia e sobrevivência, obtive a minha primeira toalha de praia.
As seguintes vieram de outros lugares: emprestadas por namoradas, “esquecidas” na mala depois de estadias em hotéis, deixadas no meu carro, levadas no divórcio, resgatadas dos meus relacionamentos. Mas nunca, nunca compradas por mim.
Enquanto mastigava o hambúrguer, percebi o peso real dessa constatação. Não se trata de cleptomania. Trata-se de marca. Uma cicatriz invisível. Uma lembrança constante de que fui pobre, muito pobre. A infância e adolescência que recordo com nostalgia foram, ao mesmo tempo, feitas de privações, de improviso, de superar barreiras invisíveis.
Hoje, olho o percurso: as habilitações académicas, as viagens pelo mundo, os sucessos e fracassos profissionais, os cargos associativos, o dinheiro poupado, os carros, os restaurantes caros, as mulheres lindas, as mulheres interessantes, a qualidade de vida conquistada. E percebo que a estrada percorrida foi longa, sinuosa, cheia de tropeços e recomeços. Mas foi a minha estrada.
Mesmo sentado à mesa com presidentes de câmara, deputados, empresários de renome internacional, artistas, músicos, convivendo com eles como iguais, o sentimento de pertença escapa-me. Como se fosse sempre um convidado temporário num salão que não me pertence. E basta um gesto, uma palavra, um olhar para me lembrar que a viagem não apaga a origem.
F. Scott Fitzgerald, em The Great Gatsby, escreveu: “You can’t repeat the past? Why, of course you can!” Mas a verdade é que o passado repete-se, não porque o queremos, mas porque ele se infiltra em cada detalhe do presente. O desconforto não se apaga com conquistas. É o nosso Gatsby interior — erguendo festas grandiosas na esperança de ser aceite, mas condenado a sentir-se sempre um intruso.
Nelson Mandela disse um dia: “Não é o meu sucesso que me define, é a forma como me levanto depois de cada queda.” Essa frase ecoa em mim porque sei que cada conquista que alcancei nasceu mais da resiliência do que do privilégio.
Há muito acenei bandeira branca nesta guerra íntima. Aprendi a viver com esse desconforto como quem aceita uma sombra que nunca se dissipa. A batalha seguinte, porém, já não me pertence: pertence ao meu filho. O meu desejo é simples — que nunca se sinta “a mais” numa sala, que encontre portas abertas e que a equidade seja real, tanto nos estudos como no desporto, no trabalho ou no afeto.
Que as toalhas continuem penduradas nas varandas, lembrando-me sempre de onde vim. Mas que o meu filho, ao estender a sua, a tenha escolhido por gosto e não por falta. Que cada fibra do seu caminho seja tecida pela liberdade e não pela necessidade.
E que, no simples gesto de comprar uma toalha de praia, ele encontre aquilo que eu ainda procuro: a leveza de pertencer, sem pedir licença.
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